Por Akracia – Fenikso Nigra

Todo dia milhões de pessoas acordam sabendo que o trabalho não pagará a conta. Não é falta de trabalho. É abundância de trabalho que não alimenta.

No Brasil, 67% dos ocupados ganham até dois salários mínimos. Isto quer dizer que a maioria trabalha para enriquecer outro. A produção existe. A riqueza também. O que falta é ela chegar nas mãos de quem a cria.

Há uma lógica aqui.

Você produz. Seu patrão vende o que você fez. A diferença entre o preço da venda e o que você recebe vai para bolsos que nunca carregam uma enxada. Isto não é economia. É subtração sistemática. Semana após semana. Ano após ano.

Enquanto isso, decisões sobre sua vida são tomadas em escritórios que você nunca entra. Horários. Salários. Quando você pode estar doente. Se sua filha pode ir à escola ou se precisa trabalhar também. Ninguém te pergunta nada.

O capitalismo não funciona através de violência apenas. Funciona através de ausência de opção.

Você precisa comer hoje. Isto te obriga a aceitar o que te oferecem. Não importa se é perigoso. Não importa se te deixa doente. Não importa se destrói suas relações. Você precisa de dinheiro. Logo, você cede. Isto é precarização. É o contrário de um acordo. É uma exigência feita à força.

Os que se recusam? Viram invisíveis. Nas ruas. Nos acampamentos. Nas favelas. A miséria é a resposta que o sistema dá a quem não obedece.

Há trabalhadores demais para cada vaga. Isto também não é acidente. Quanto mais gente desesperada, mais barato fica comprar trabalho. Os ricos sabem disso. Mantêm isto assim.

E a resistência começa quando você entende isto.

Não quando você fica triste. Quando você vê a engrenagem.

Algumas pessoas já viram. Já entenderam que sozinhas não mudam nada. Que patrão nenhum devolve poder porque pediu educadamente. Que o sistema não tem conselho de ética que pense em você.

Começaram a se organizar. A conversar com outras pessoas que trabalham do lado. A pensar junto sobre como as coisas poderiam ser diferentes. Não num futuro longínquo. Aqui. Agora. Com as ferramentas que temos.

Alguns controlam a fábrica. Alguns barraram a demissão injusta na rua. Alguns criaram redes de distribuição de comida. Alguns recusaram o salário de fome e negociaram outro. Alguns ocuparam prédios vazios para moradia. Não é fantasia. São fatos. Acontecem quando pessoas deixam de aceitar.

Mas isto é frágil. Porque as pessoas estão cansadas. Porque a luta não vem com salário. Porque a televisão te distrai. Porque a polícia bate quando fica ousado demais. Porque vizinho vira inimigo quando alguém tira do seu prato.

O capitalismo sabe disto tudo. Por isso dura.

Ainda assim, algo muda quando você vê que não está sozinho. Que outras pessoas sentem o mesmo. Que existem formas de organizar sem patrão. Que decisão coletiva é possível. Que você pode ter voz naquilo que te afeta.

A pergunta não é se isto vai funcionar.

A pergunta é: quanto mais tempo você espera até tentar?

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Sozinho você não muda nada