Por Akracia – Fenikso Nigra
As igrejas se profissionalizaram na arte de captar recursos de quem tem pouco. Quem já não sabe mais a quem recorrer apela a Deus, na esperança de ver alguma necessidade atendida — e as instituições que deveriam apenas acolher essa fé aproveitam o momento para cobrar por ela. Segundo essa leitura anarquista, o Estado tem boas razões para tratar as religiões como aliadas: rezar e meditar tende a ser bem mais dócil do que se organizar e resistir às pressões que recaem sobre quem trabalha.
O caso não é hipotético nem distante. Tramita no Congresso a PEC 5/23, já aprovada em comissão especial, que amplia a imunidade tributária dos templos e a estende também a creches, asilos e outras entidades assistenciais ligadas a igrejas. A Constituição de 1988 já isenta templos de impostos sobre patrimônio, renda e serviços ligados à atividade religiosa — a nova proposta amplia ainda mais essa proteção, num momento em que boa parte da população convive com uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo. Não é um caso isolado: é o Estado reforçando, por lei, o mesmo arranjo que este texto critica.
Segundo a perspectiva libertária que orienta este texto, as religiões funcionam, nesse contexto, como escape e ilusão — não porque a fé em si seja falsa, mas porque a estrutura em torno dela aprende a lucrar com a resignação que ensina. Chamar isso de “dízimo”, “oferta” ou “contribuição” não muda a lógica de fundo: alguém entrega parte do que tem, ou do que não tem, na esperança de manter um pacto com uma entidade que, por definição teológica, seria autossuficiente e onisciente — e que, portanto, não precisaria de dinheiro algum para julgar quem quer que seja.
A Igreja Católica acumulou patrimônio ao longo de séculos e mantém, até hoje, um banco próprio para administrá-lo: o Instituto para as Obras de Religião, mais conhecido como Banco do Vaticano. Padres fazem voto pessoal de pobreza; a instituição que os emprega, não. As igrejas evangélicas neopentecostais seguiram trilha semelhante, com a chamada teologia da prosperidade: quem chega primeiro e contribui mais tende a ocupar posição de destaque; quem chega depois sustenta a estrutura sem receber o mesmo retorno. Uma pirâmide, ainda que vestida de linguagem espiritual.
A pergunta que o título coloca não é retórica no sentido vazio. Ela aponta para uma contradição central: se o divino é, por definição, autossuficiente, para que serve a intermediação humana que cobra por acesso a ele? O templo de qualquer fé, quando se leva a sério a ideia de que o ser humano foi feito à imagem do divino, já estaria dentro de cada pessoa, não numa conta bancária de instituição. Nenhuma oferenda muda o que uma entidade onisciente já sabe de antemão.
O ponto não é recusar toda forma de fé ou de comunidade religiosa. É desconfiar de quem transforma fé em arrecadação. Desconfie dos templos e suas coletas, sejam elas em bandeja, aplicativo, cartão de crédito ou financiamento parcelado. Para manter obras filantrópicas de fato, o caminho mais direto é atuar diretamente nelas, não financiar estruturas que se apresentam como intermediárias entre quem precisa de ajuda e quem poderia ajudar.
Muita gente entrega dinheiro não para atender ao divino, mas para aliviar a própria consciência — sobretudo quem lucra, de algum modo, com a exploração alheia. O dízimo funciona, nesses casos, como anestesia que adormece a consciência sem curar a ferida: alivia quem paga, sem alterar em nada a situação de quem segue explorado. Se as instituições religiosas não abrem os próprios cofres nem redistribuem sua riqueza, resta aos fiéis fazer, por conta própria, o que a fé deveria inspirar: repartir o que se tem e não se calar diante da exploração — com religião ou sem ela.
Divindades não precisam de riqueza, por que seus representantes precisam?
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