
Por Akracia – Fenikso Nigra
O espetáculo eleitoral ganhou novas telas, mas o enredo permanece o mesmo. Celebra-se o algoritmo, venera-se o engajamento e vende-se a ideia de que a política se tornou democrática porque qualquer pessoa pode gravar um vídeo e postar uma opinião. No entanto, basta olhar ao redor: o que mudou para quem acorda às cinco da manhã e enfrenta lotação no transporte público? A paisagem é a mesma, o cansaço é o mesmo, a distância entre quem decide e quem obedece é a mesma. A única diferença é que agora a distração chegou à palma da mão.
A transição da política dos currais eleitorais para os feeds de notícias não democratizou o acesso ao poder; apenas refinou a máquina de alienação. Segundo essa perspectiva, o capital econômico deixou de precisar comprar panfletos ou tempo de televisão — passou a comprar atenção diretamente. O influenciador digital, a celebridade do momento e o articulador de polêmicas entram na corrida eleitoral com largada queimada e vantagem consolidada. Enquanto quem trabalha, quem lidera movimentos de base e quem sente na pele a dor da periferia tenta ser ouvido no grito, a política do espetáculo transforma a indignação popular em recurso eleitoral para aqueles que sabem manipular os algoritmos desenhados nos vales do silício. O que se vende como participação é, na prática, outro invólucro para uma submissão que já existia antes das telas.
Segundo essa leitura, a desigualdade não é uma falha do sistema representativo; é a sua regra de funcionamento. A urna eletrônica pode até contar os votos com precisão, mas o que ela valida é a delegação de poder a uma casta que não representa quem produz a riqueza. O parlamento continua sendo um espaço de negociação para empresários, latifundiários e beneficiários da máquina pública, agora com filtros de Instagram e discursos performáticos projetados para gerar indignação passageira. A cada ciclo eleitoral, a mesma promessa de mudança; a cada mandato, a mesma entrega dos recursos públicos ao capital privado. Não é desvio de conduta. É a própria mecânica do jogo.
A história recente oferece exemplos que sustentam essa desconfiança. Em 2018, no Brasil, a eleição presidencial foi decidida em grande parte pela capacidade de campanhas de espalhar desinformação via aplicativos de mensagem, com financiamento obscuro e uso de empresas especializadas em perfis falsos. Em 2022, nos Estados Unidos, o magnata Elon Musk adquiriu uma das principais plataformas de rede social e, em poucos meses, alterou seus algoritmos para amplificar conteúdo de direita, demitiu equipes de moderação e restaurou perfis previamente suspensos por discurso de ódio. A plataforma deixou de ser, pelo menos formalmente, um espaço relativamente neutro e tornou-se instrumento de intervenção política direta de um bilionário. Esses casos mostram que a tela não é território livre: é propriedade de quem pode comprá-la, moldá-la e desligá-la.
A pergunta que fica é simples: por que continuar apostando em quem tem tudo a perder com a nossa autonomia? Segundo essa vertente do pensamento libertário, não haverá libertação dentro de um Estado desenhado para proteger a propriedade privada e monopolizar a violência. O político que pede o voto não busca destruir a estrutura que oprime; busca apenas o direito de gerenciá-la com outro estilo. A mudança não virá de quem está dentro do sistema, por mais sinceras que sejam suas intenções. Virá de quem o recusa e constrói outra coisa no lugar.
A política que rasga esse contrato não se faz na cabine de votação e muito menos nos comentários das redes sociais. Ela se faz na ação direta, no apoio mútuo e na horizontalidade. Em 2011, o movimento 15-M na Espanha começou com uma convocação digital, mas ganhou corpo nas praças ocupadas, onde assembleias de centenas de pessoas decidiam, sem líderes permanentes, o rumo das manifestações. Em 2013, as Jornadas de Junho no Brasil explodiram nas redes, mas o que permaneceu foi a experiência de quem foi à rua, enfrentou a polícia e descobriu que a cidade podia ser ocupada de outra forma. A tela foi estopim; a pólvora estava na rua. Para essa vertente, a lição é clara: tecnologia amplia o alcance de uma rede que já existe; dificilmente a cria do nada.
A autogestão aparece, nesse contexto, como prática cotidiana e não como utopia distante. A ocupação de um imóvel abandonado para transformá-lo em moradia; o controle direto da produção por trabalhadores de uma fábrica, sem pedir licença a patrões ou burocratas; uma feira de trocas estabelecida por uma comunidade, sem a mediação do dinheiro e do lucro; assembleias de bairro onde cada voz tem o mesmo peso e nenhuma decisão é delegada a terceiros — nesses momentos, a política deixa de ser espetáculo e torna-se experiência. Não há filtro que simule isso. Não há algoritmo que substitua a palavra dada de frente.
De que adianta compartilhar um manifesto se a única pessoa que o lê é você mesmo? Quantas petições online já foram assinadas sem que uma porta sequer se abrisse? A indignação que se gasta em curtidas e comentários é indignação que não se transforma em organização. A tela oferece a ilusão de participação com o conforto da distância; a rua exige o risco do encontro real. Entre uma e outra, há um abismo que não se atravessa com Wi-Fi. A liberdade não se elege, não se curte e não se compartilha em stories. Ela se constrói de baixo para cima, no cotidiano, na solidariedade concreta e no enfrentamento direto às estruturas que mantêm a maioria à margem. O caminho é a autogestão, a aventura é coletiva, e a recompensa — a posse plena da própria existência — não cabe em nenhuma tela.
