Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Toda geração produz pessoas inconformadas com a ordem existente. Organizam manifestações, denunciam injustiças, criam movimentos e se apresentam como agentes de transformação. Ainda assim, parte considerável dessa energia termina canalizada para preservar as próprias estruturas que afirma combater. Em vez de enfrentar as bases econômicas, políticas, culturais e sociais que reproduzem a desigualdade, concentra esforço em reformar o funcionamento do sistema, na esperança de que ele se torne mais justo sem deixar de ser o que é.

Aí reside uma das contradições mais persistentes da política contemporânea. Muitas iniciativas que se apresentam como renovadoras acabam fortalecendo a confiança nas mesmas instituições responsáveis por administrar as desigualdades que dizem combater. A crítica se desloca das estruturas para as pessoas: o problema deixa de ser o modo como o poder é organizado e passa a ser só a qualidade moral de quem o exerce.

Essa lógica aparece de forma clara em período eleitoral. A cada escândalo de corrupção, multiplicam-se campanhas de “voto consciente”, sustentadas pela ideia de que bastaria trocar políticos corruptos por representantes honestos para moralizar a democracia representativa. O RenovaBR, criado após a Operação Lava Jato para formar e apoiar novas candidaturas, expressa bem essa expectativa: a crença de que renovar quem ocupa o cargo bastaria para transformar o funcionamento das instituições. Segundo a perspectiva anarquista, essa leitura alcança só a superfície do problema.

Quem chega a um mandato raramente percorre esse caminho sozinho. A candidatura depende de partido, rede política, grupo de apoio, financiamento e alianças capazes de sustentá-la durante a disputa. Depois da eleição, novos compromissos surgem para garantir governabilidade, aprovar projeto e manter apoio suficiente para seguir no cargo ou disputar a próxima eleição. Forma-se uma cadeia permanente de dependência em que diferentes interesses disputam influência sobre a decisão pública. Trocar quem ocupa o cargo dificilmente altera a lógica que organiza o próprio cargo.

Para vertentes anarquistas, esse padrão não decorre principalmente do caráter moral de cada governante, mas da própria estrutura da representação política. O problema não estaria em encontrar gente mais honesta ou mais bem-intencionada, mas no fato de que qualquer sistema baseado em delegação permanente de poder tende a afastar a decisão das comunidades diretamente afetadas por ela. A representação substitui a participação, e a política vira, aos poucos, administração de interesses organizados.

Por isso muita proposta de reforma produz efeito paradoxal: mobiliza energia política, esperança coletiva e capacidade de organização inteiras para aperfeiçoar um mecanismo cuja função segue praticamente igual. A cada eleição renova-se a expectativa de que, desta vez, a mudança virá pelas instituições; quando não vem, começa novo ciclo de frustração, seguido de nova promessa de renovação. Enquanto isso, concentração de propriedade, riqueza e poder seguem praticamente intocadas.

Segundo essa tradição, esse movimento acaba cumprindo papel conservador, mesmo sem intenção. Ao deslocar o horizonte de transformação sempre para a próxima eleição, o próximo partido ou o próximo nome, reduz-se o espaço dedicado a formas autônomas de organização social — o debate se concentra em quem vai administrar o sistema, não em se o próprio sistema deveria continuar existindo.

A alternativa proposta pelo anarquismo segue outro caminho: em vez de depositar expectativa na troca periódica de governante, fortalecer espaços em que a própria comunidade delibere sobre o que afeta sua vida. Assembleia de bairro, sindicato organizado pela base, cooperativa, coletivo popular, rede de apoio mútuo — formas de organização horizontal que aproximam decisão e responsabilidade, reduzindo a distância entre quem sofre o problema e quem decide sobre ele. Esse caminho exige mais tempo e mais disposição para construir acordo coletivo, sem a rapidez de promessa eleitoral nem liderança capaz de concentrar expectativa em torno de si — mas enfrenta o que a tradição anarquista considera fundamental: impedir que o poder volte a virar privilégio de poucos.

A crítica anarquista, por isso, não mira só governante, partido ou instituição. Alcança também a rebeldia que, mesmo bem-intencionada, acaba reforçando a confiança nas estruturas que pretendia transformar. Quando toda esperança de mudança passa a depender da próxima eleição, da próxima liderança ou da próxima reforma, a rebeldia deixa de questionar os fundamentos do sistema e passa a sustentar, sem perceber, sua continuidade.

Quando a rebeldia preserva o sistema
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