Por Akracia – Fenikso Nigra

A religião, em si mesma, não deveria ser um problema para o anarquismo. A crença pertence ao campo da consciência, da intimidade e da liberdade individual. Cada pessoa deve ter o direito de acreditar naquilo que lhe ofereça sentido, esperança ou conforto, assim como deve ter o mesmo direito de não acreditar em divindade alguma. A liberdade de consciência precisa valer nos dois sentidos: tanto para quem possui uma fé quanto para quem rejeita qualquer forma de religião.

O problema começa quando a crença deixa de ser uma escolha pessoal e passa a funcionar como instrumento de poder sobre a vida alheia. É nesse ponto que a questão religiosa deixa de pertencer exclusivamente ao foro íntimo e passa a interessar diretamente às correntes anarquistas. Quando instituições religiosas utilizam sua influência para impor comportamentos, justificar discriminações, perseguir quem pensa diferente ou interferir na liberdade de quem não compartilha de seus dogmas, já não estamos diante de uma simples manifestação de fé. Estamos diante de uma relação de poder.

A história oferece exemplos suficientes para demonstrar que determinadas instituições religiosas estiveram profundamente associadas às estruturas políticas e econômicas de seu tempo. No Brasil, a aliança entre setores do evangelicalismo e o governo bolsonarista, entre 2019 e 2022, exemplifica bem esse fenômeno: lideranças religiosas utilizaram púlpitos e plataformas digitais para fazer campanha aberta a candidatos, transformar pautas morais em bandeiras eleitorais e pressionar o Estado a adotar visões teológicas específicas como política pública. Em diferentes períodos históricos, autoridades religiosas legitimaram monarquias, desigualdades sociais, escravidão, perseguições e formas diversas de submissão. Em nome de uma ordem considerada sagrada, pessoas foram ensinadas a aceitar como inevitável aquilo que poderia e deveria ser transformado. A promessa de recompensa futura serviu, muitas vezes, para tornar suportável uma existência de sofrimento presente.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando instituições que pregam humildade, caridade e renúncia acumulam patrimônio, influência econômica e poder político enquanto recomendam aos pobres resignação diante da própria miséria. A questão não está em condenar quem possui fé ou pratica sua religião com sinceridade. Está em perguntar por que aqueles que pregam desprendimento tantas vezes constroem estruturas materiais baseadas justamente na acumulação e na autoridade que dizem combater.

Para essa vertente do pensamento libertário, a questão da existência ou inexistência de divindades pertence a um campo que escapa à análise política. Afirmar categoricamente que toda religião é verdadeira seria dogmatismo; afirmar que toda experiência religiosa é necessariamente falsa também poderia transformar a crítica em outro dogma. A liberdade começa justamente quando ninguém recebe autoridade para determinar aquilo que outra pessoa deve acreditar.

Dessa forma, a posição anarquista pode ser radical sem ser intolerante: liberdade absoluta de consciência e oposição igualmente absoluta à exploração e à opressão. Uma comunidade religiosa pode organizar seus cultos, construir seus espaços e transmitir suas crenças enquanto respeitar a liberdade de quem está fora dela. O problema surge quando pretende transformar seus dogmas em regra obrigatória para toda a sociedade, especialmente quando busca utilizar o Estado, a violência, a discriminação ou a pressão econômica para impor sua visão de mundo.

Também merece atenção o papel conformista que determinadas instituições religiosas podem desempenhar. Quando o sofrimento social é apresentado como provação inevitável, quando a pobreza é transformada em virtude e a obediência em qualidade moral, a indignação perde força. O indivíduo aprende a suportar aquilo que deveria questionar. Em outros casos, a mesma estrutura religiosa pode produzir fanatismo, perseguição e hostilidade contra qualquer pessoa considerada ameaça aos seus valores. Resignação e intolerância parecem opostas, mas podem nascer da mesma concentração de autoridade.

Para uma perspectiva anarquista, portanto, não se trata de substituir a religião por outra autoridade, nem de perseguir quem acredita. Trata-se de impedir que qualquer crença se transforme em instrumento de dominação. Uma religião que prega amor deve ser confrontada quando pratica ódio. Uma instituição que fala em fraternidade deve responder quando promove discriminação. Quem proclama igualdade não pode utilizar sua influência para perpetuar privilégios.

A liberdade religiosa só possui sentido quando acompanha a liberdade de não ter religião. E ambas só podem existir plenamente quando nenhuma instituição possui o direito de governar a consciência alheia.

Permita-se que cada pessoa seja livre para acreditar, duvidar, questionar ou negar. E assegure-se que nenhuma igreja, templo, sacerdote, pastor ou autoridade religiosa receba o poder de decidir como os demais devem viver. A crítica anarquista não precisa combater a fé de quem busca nela conforto. Precisa combater aquilo que transforma a fé em autoridade, a autoridade em privilégio e o privilégio em dominação.

Porque uma sociedade livre não será aquela em que todos acreditam da mesma maneira. Será aquela em que ninguém precise acreditar naquilo que outro alguém ordenou.

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