
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Há uma confusão recorrente sempre que o anarquismo entra no debate político. Não é raro que alguém proponha líderes fortes, partidos de vanguarda ou direções permanentes como instrumentos indispensáveis para transformar a sociedade, imaginando que essas estruturas possam coexistir naturalmente com uma proposta libertária. Para a tradição anarquista, porém, essa conciliação é contraditória. A busca por uma sociedade livre da exploração e da opressão — política, econômica, social, étnica, de gênero ou religiosa — exige romper com relações permanentes de dominação, e não reconstruí-las sob novos símbolos, novas palavras de ordem ou novas bandeiras.
Essa posição não nasce de um apego dogmático à horizontalidade. Surge de uma pergunta simples: como uma sociedade baseada na autonomia poderia ser construída por instituições que concentram poder em poucas mãos? Segundo essa perspectiva, os meios moldam os fins. Uma prática política baseada na obediência tende a formar pessoas acostumadas a obedecer; uma prática baseada na participação tende a desenvolver a capacidade de decidir, assumir responsabilidades e resolver conflitos coletivamente. A transformação social não começaria apenas depois da revolução; precisaria estar presente na maneira como as pessoas já se organizam durante sua construção.
Isso não significa negar a importância da experiência, do conhecimento ou da capacidade de iniciativa. Em qualquer grupo haverá pessoas mais experientes em determinados assuntos, capazes de orientar debates, compartilhar aprendizados ou assumir tarefas específicas. A diferença fundamental está em que essa influência não se converte automaticamente em autoridade permanente. Funções de coordenação podem existir, mas permanecem subordinadas às decisões coletivas, sujeitas à rotatividade, ao controle da assembleia e à possibilidade de substituição sempre que deixarem de representar a vontade comum.
A experiência histórica oferece exemplos concretos dessa possibilidade. Durante a Revolução Espanhola de 1936, milhares de trabalhadores organizaram fábricas, serviços públicos, transportes e coletividades rurais por meio de assembleias e federações de conselhos. Delegados eram escolhidos para executar decisões e coordenar atividades, mas seus mandatos eram vinculados às deliberações coletivas e podiam ser revogados. A guerra civil e a vitória do franquismo interromperam aquela experiência, mas ela demonstrou que organização horizontal não significa ausência de organização. Pelo contrário: exige participação constante, responsabilidade compartilhada e compromisso cotidiano muito maior do que a simples obediência a uma direção central.
Talvez justamente aí resida a maior dificuldade. Construir assembleias, ouvir posições divergentes, buscar consensos possíveis e aceitar que ninguém possui respostas definitivas demanda tempo, paciência e disposição para o conflito democrático. É compreensível que, diante desse esforço, surja a tentação dos atalhos. Sempre aparece quem afirme possuir a estratégia correta, quem se apresente como intérprete exclusivo dos interesses populares ou quem prometa acelerar a transformação caso lhe seja confiada autoridade suficiente. Para a crítica anarquista, é nesse momento que nasce o vanguardismo: quando a confiança na capacidade coletiva é substituída pela expectativa de que uma minoria conduza o restante da sociedade.
A história do século XX alimenta essa desconfiança. Diversas revoluções que nasceram prometendo ampliar o poder popular terminaram concentrando decisões em partidos que passaram a controlar o próprio Estado. Lideranças surgidas em processos revolucionários transformaram-se, pouco a pouco, em dirigentes permanentes, enquanto instituições criadas para representar a população passaram a falar em seu nome sem depender efetivamente dela. A questão não reside apenas nas intenções de quem governa. Estruturas que concentram autoridade tendem a desenvolver mecanismos de autopreservação, independentemente das convicções ideológicas de seus ocupantes.
Por essa razão, o anarquismo dirige sua crítica menos às pessoas do que às formas de organização. Assembleias, conselhos, federações, comissões temporárias, mandatos revogáveis e funções rotativas exigem mais esforço do que uma cadeia hierárquica tradicional. O custo da horizontalidade é a lentidão. Seu benefício, porém, é reduzir a possibilidade de que decisões fundamentais sejam monopolizadas por uma minoria e transformar a participação em prática cotidiana, e não em evento esporádico.
Quando surgem propostas para incorporar partidos dirigentes, lideranças permanentes ou vanguardas políticas ao anarquismo, a resposta não precisa ser hostil, mas precisa ser precisa. O anarquismo não constitui um rótulo genérico para toda crítica ao capitalismo nem um espaço onde qualquer estratégia emancipatória encontra abrigo. Trata-se de uma tradição política com fundamentos próprios, entre eles a convicção de que nenhuma forma duradoura de dominação pode servir como caminho para uma sociedade livre. A concentração de autoridade não seria um detalhe metodológico corrigido no futuro; seria a reprodução, desde o início, das relações de poder que se pretende superar.
É por isso que a organização horizontal ocupa lugar central nessa tradição. Ela não representa apenas uma técnica administrativa nem uma preferência organizacional. Constitui a expressão prática da ideia de que liberdade, igualdade e solidariedade não podem ser delegadas. Se o objetivo é construir uma sociedade em que ninguém governe sobre os demais, essa realidade precisa começar a ser exercitada nas formas de organização do presente. Caso contrário, muda-se o discurso, mudam-se os dirigentes e mudam-se os símbolos, mas permanece intacta a lógica que concentra poder nas mãos de poucos.
