
Por Akracia – Fenikso Nigra
Uma fábrica fecha. Duzentas famílias acordam desempregadas. A decisão foi tomada em São Paulo, em uma sala onde nenhum dos afetados esteve. Nem foram informados antes. A empresa lucrou R$ 40 milhões no ano anterior.
Isso é uma rotina comum, estrutural, do empresariado e patronal gananciosa e ambiciosa!
O capitalismo do século XXI funciona assim: concentra poder de decisão enquanto dispersa consequências. Um algoritmo determina seu turno de trabalho. Uma reunião de acionistas define se sua comunidade tem água. Um contrato que você não negociou estabelece quanto ganha.
A distância entre quem decide e quem sofre as consequências é o segredo da máquina.
Ação direta é o oposto disso. Significa intervir diretamente no problema, sem intermediários que diluem sua vontade. Não é violência automática. É ocupar um prédio abandonado enquanto famílias dormem na rua. É organizar um comitê de fábrica que se recusa a obedecer ordens que não faz sentido. É cortar a energia do escritório que explora trabalhadores em domicílio. É plantar alimento em terra ociosa de grileiro.
O Estado oferece um caminho diferente: petição, voto, espera. Institucionalizado. Seguro. E profundamente lento para quem não tem tempo. Uma mulher que trabalha 12 horas por dia não pode aguardar três mandatos legislativos por creche pública. Uma criança com fome não vota.
Ação direta reconhece isso. Não nega a democracia. A questiona. Se a maioria das decisões que afetam sua vida não passa por votação, por que fingir que votação resolve?
Mas ação direta isolada é frágil. Um grupo ocupa um prédio e a polícia remove. Uma fábrica se organiza e sofre represálias. Um bairro planta alimento e recebe ameaça de grileiro. Sozinhos, os atores se extenuam.
Por isso organização horizontal.
Horizontal não significa anarquia no sentido de desordem. Significa: decisão conjunta. Responsabilidade distribuída. Nenhuma pessoa ou pequeno grupo acima dos outros. Qualquer um que seja afetado participa. Qualquer um que participa é responsável.
Parece simples. Na prática, esbarra em décadas de hábito de obediência. As pessoas chegam em reunião esperando obedecer ou mandar. Raramente esperando decidir junto. Mas aprende-se.
A organização horizontal funciona onde existe confiança mútua e compromisso. Isso não se improvisa. Demanda tempo. Exige que pessoas apareçam regularmente. Que cumpram o que prometem. Que se responsabilizem pelos erros.
Por isso cresce lentamente. Por isso as redes anarquistas nunca competem em velocidade com o Estado ou corporações. Mas ganham em sustentabilidade. Uma decisão tomada por assembléia dura porque as pessoas que a executam a aprovaram. Uma ordem de chefe dura enquanto o medo funciona.
O século XXI intensificou a exploração. Algoritmos descartam pessoas. Dívida priva de futuro antes de nascer. Precariedade é contínua. A resposta não virá de quem lucra com tudo isso.
Ação direta + organização horizontal = poder que não se delega.
Significa dizer não. Significa construir alternativa. Significa riscar o papel que lhe designaram.
Significa ocupar espaço e tempo com sua própria vontade. Significa que quando você trabalha, sabe que o produto de seu trabalho é decidido por você. Que quando sua comunidade enfrenta um problema, a solução sai de dentro, não de fora.
Isso produz pessoas diferentes. Não melhores moralmente. Simplesmente pessoas que desenvolveram capacidade de decidir por si. Pessoas acostumadas a dizer “podemos fazer diferente” e fazer.
Não é utopia. É prática. Existe em centenas de coletivos, ocupações, associações de moradores que funcionam assim hoje. Fragilmente. Precariamente. Mas funcionam.
A questão não é se é possível. É quantos percebem que é possível.
Na luta, somos pessoas dignas e livres.
