
Por Akracia – Fenikso Nigra
A urgência climática já não é hipótese, é rotina: enchentes que arrastam bairros inteiros, secas que esvaziam rios antes considerados perenes, temporadas de calor que quebram recordes ano após ano. Ainda assim, desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, passando por décadas de encontros, protocolos e promessas, a transição energética segue num ritmo muito abaixo do que a gravidade da crise exige, marcada por metas adiadas e compromissos raramente cumpridos por inteiro. Entender por que isso acontece exige olhar para quem realmente decide o ritmo das mudanças, e para os interesses que essas pessoas defendem.
No centro dessa engrenagem está um grupo restrito de grandes corporações de petróleo, gás e carvão, ao lado de bancos e fundos que financiam esses negócios há décadas. Para esse grupo, os combustíveis fósseis não são apenas uma fonte de energia: são a base de um modelo de acumulação que depende de expansão contínua e do controle de recursos concentrados. Documentos internos de grandes petroleiras, hoje públicos por conta de processos judiciais, mostram que parte da indústria já conhecia os riscos climáticos desde os anos 1970. Mesmo assim, campanhas inteiras foram financiadas para semear dúvida sobre a ciência e atrasar qualquer resposta coletiva. Algo muito bem calculado, longe de qualquer ignorância.
As conferências do clima, por sua vez, operam numa estrutura que quase garante lentidão: as decisões dependem de consenso entre governos com interesses opostos, e cada delegação chega à mesa defendendo vantagens próprias antes de qualquer compromisso comum. Nesse ambiente, o setor fossilífero não fica de fora observando de longe — entra pela porta da frente. Em edições recentes dessas conferências, o número de representantes ligados à indústria de combustíveis fósseis chegou a superar delegações nacionais inteiras. Não é exagero dizer que quem mais lucra com a manutenção do sistema atual também ajuda a escrever as regras que deveriam limitá-lo.
É nesse cenário que o greenwashing deixa de ser detalhe e passa a ocupar posição central. Em primeiro lugar, empresas do setor lançam campanhas inteiras em torno de “compromissos net zero” e “neutralidade de carbono”, enquanto mantêm ou ampliam a exploração de novas reservas de petróleo e gás. Em seguida, adotam linguagem ambiental em relatórios corporativos e patrocinam eventos ligados à sustentabilidade, construindo uma imagem pública de responsabilidade que raramente corresponde às práticas reais de produção. Por fim, essas mesmas empresas usam o discurso verde para pressionar por regulações mais brandas, argumentando que já fazem sua parte voluntariamente e que imposições mais duras seriam desnecessárias. O efeito é duplo: ganha-se tempo e ganha-se legitimidade, sem abrir mão do modelo de negócio que gera a crise.
Governos também recorrem a versões próprias de greenwashing. Metas climáticas anunciadas com grande alarde acabam apoiadas em mecanismos de compensação de carbono questionáveis, ou em tecnologias de captura ainda caras e incipientes, usadas como justificativa para adiar cortes reais de emissão. Assim, o discurso da transição convive, lado a lado, com a aprovação de novos poços e minas, numa contradição raramente enfrentada de frente nos fóruns oficiais.
Quem defende a manutenção do ritmo atual costuma argumentar que uma transição mais gradual é necessária para preservar empregos, garantir segurança energética e evitar choques bruscos na economia. Diferentes correntes críticas do capitalismo, entre elas a anarquista, respondem que esse argumento funciona, na prática, como justificativa permanente para adiar mudanças incompatíveis com a velocidade da crise. Para essas correntes, a lentidão da transição não é falha técnica nem má vontade pontual: é consequência de um sistema em que poder econômico e poder político estão profundamente entrelaçados. Enquanto decisões sobre energia, clima e futuro continuarem concentradas nas mesmas mãos que lucram com o status quo, dificilmente a urgência climática vai se traduzir em ação proporcional ao tamanho do problema. A alternativa, para essas correntes, não está em esperar que essas estruturas se reformem por conta própria, mas em construir formas de decisão mais descentralizadas, ligadas diretamente às comunidades que sofrem os efeitos concretos da crise.
