Por Akracia – Fenikso Nigra

Durante décadas, o livre-comércio foi apresentado como uma das principais promessas do liberalismo econômico. Reduzir tarifas, abrir mercados e permitir a livre circulação de mercadorias seriam caminhos para ampliar a concorrência, baixar preços e espalhar prosperidade. Organismos internacionais, governos e grandes empresas defenderam repetidamente essa ideia, sobretudo ao negociar acordos comerciais com países periféricos. Basta, porém, observar um episódio recente para ver esse discurso encontrar seu limite bem claro.

Em agosto de 2025, os Estados Unidos impuseram tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — não por razão econômica, mas citando explicitamente o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro como motivo da decisão. Quase um ano depois, em julho de 2026, veio uma segunda rodada: tarifa de 25% baseada numa investigação de “práticas comerciais desleais”, agora com 864 produtos isentos da cobrança. A lista de exceções não seguiu critério de justiça comercial: seguiu o critério de quem precisa de quê. Café, carne bovina, laranja, petróleo e peças de avião ficaram de fora simplesmente porque os Estados Unidos não produzem esses itens em quantidade suficiente para dispensar o fornecedor brasileiro. Na rodada anterior, quando o café não tinha sido poupado, o preço da bebida disparou para o consumidor americano — prova de que a própria tarifa também cobra seu preço de quem a aplica.

Esse episódio resume bem o padrão: o mercado permanece livre enquanto isso favorece determinados objetivos — políticos, num caso; econômicos, no outro. Quando deixa de favorecê-los, o próprio Estado altera as regras, ainda que isso signifique contradizer o discurso liberal que sustentava minutos antes.

As consequências raramente recaem sobre os grandes grupos econômicos de forma proporcional. O setor brasileiro de suco de laranja projetou prejuízo anual de R$ 4,5 bilhões só com a ameaça da tarifa de 50%. Produtores, exportadores e trabalhadores da cadeia produtiva sentem o golpe primeiro; quem negocia o acordo nos gabinetes de Brasília e Washington dificilmente sente do mesmo jeito. Quando um país responde a tarifas com retaliação, produtos encarecem, exportações recuam e comunidades inteiras dependentes dessas atividades enfrentam dificuldade — enquanto isso, em alguma cidade do interior, alguém descobre que o preço de um produto qualquer subiu de novo e não sabe exatamente por quê.

O paradoxo fica ainda mais evidente quando se olha para países em desenvolvimento como um todo. Durante anos, essas economias ouviram recomendação para reduzir tarifas e abrir mercado em nome da eficiência. Quando passam a competir em setores estratégicos, no entanto, encontram do outro lado subsídios agrícolas europeus e norte-americanos que somam bilhões de dólares por ano, sufocando produtores locais ao mesmo tempo em que se exige abertura recíproca dessas mesmas nações.

Segundo a perspectiva anarquista, essa aparente contradição não é exceção ao funcionamento do capitalismo contemporâneo — é a regra. Estados e grandes grupos econômicos mantêm relação de interdependência: o discurso favorável ao livre mercado ou ao protecionismo varia conforme a circunstância, mas ambos servem, em última instância, à preservação de estruturas de poder já consolidadas. A escolha entre abrir ou fechar fronteiras deixa de ser questão de princípio e passa a refletir estratégia de poder num determinado momento da disputa internacional.

Para essa tradição, esse padrão evidencia que decisões econômicas de grande escala seguem sendo tomadas sem participação das comunidades diretamente afetadas por elas. Debates sobre tarifas deixam, assim, de ser apenas questão técnica de comércio exterior e passam a revelar como estruturas políticas e econômicas distribuem custo e benefício de forma desigual. O verdadeiro paradoxo não está na distância entre o discurso liberal e a prática protecionista — está no fato de que, qualquer que seja a política adotada, o custo mais alto recai sempre sobre quem tem menos poder para influenciar essas decisões.

O paradoxo do tarifaço: quando o livre mercado termina na fronteira
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