Por Akracia

Antes de ser esporte, o futebol de espetáculo já é rito. Bandeiras erguidas como estandartes, hinos entoados como cânticos, camisas vestidas como paramentos, tudo compõe uma liturgia que ocupa o lugar antes reservado à fé. E como toda liturgia bem construída, essa também exige sacrifício. Só que o sacrifício não recai sobre quem organiza o culto, e sim sobre quem sustenta, com o corpo e o salário, a engrenagem por trás dele.

Basta observar o que se repete a cada Copa do Mundo, em qualquer país-sede. Multidões se entregam de corpo e alma à torcida, comprando produtos oficiais, pagando ingressos inacessíveis, viajando para acompanhar seleções, enquanto quem trabalha nos bastidores segue sem folga garantida, sem proteção contra o calor extremo, sem qualquer participação nos lucros bilionários movimentados pelo evento. A devoção coletiva ao espetáculo naturaliza essa desigualdade a ponto de torná-la invisível: questionar o custo humano por trás da festa soa, aos olhos de quem está entregue ao culto, como profanação.

Esse fanatismo cumpre uma função que interessa muito a quem lucra com ele. Enquanto a atenção pública se concentra inteiramente no resultado do próximo jogo, outras engrenagens seguem operando sem resistência: contratos temporários e precários se espalham disfarçados de oportunidade, sistemas de reconhecimento facial e coleta biométrica avançam sobre o corpo de torcedoras e torcedores sob pretexto de segurança, e cadeias hoteleiras, marcas de bebida e federações esportivas embolsam cifras astronômicas enquanto quem vende produtos do lado de fora do estádio segue disputando espaço na informalidade. Primeiro vem o encantamento, depois a entrega irrestrita, por fim a aceitação silenciosa de qualquer abuso cometido em nome da paixão.

Não é exagero comparar essa estrutura a uma seita. Como em qualquer culto tóxico, há líderes que concentram poder e riqueza, discurso que apela à emoção para calar o pensamento crítico, e uma comunidade de fiéis disposta a defender a instituição mesmo quando ela adoece quem a sustenta. Questionar o modelo é tratado como traição à torcida, como se amar o jogo exigisse, obrigatoriamente, aceitar a exploração que o cerca. Essa lógica se espalha muito além dos gramados: aparece em cidades inteiras remodeladas para agradar patrocinadores, em populações deslocadas para dar lugar a arenas, em trabalhadoras e trabalhadores expostos a jornadas extenuantes só porque “é Copa”, como se essa justificativa bastasse para suspender qualquer direito.

O problema não está em gostar de futebol, tampouco em sentir alegria genuína diante de um jogo bem jogado. O problema está em transformar essa alegria em obediência automática ao espetáculo, em anestesia coletiva que impede perceber quem paga a conta por trás da festa. Um culto se sustenta justamente pela incapacidade de seus fiéis de enxergar a estrutura que os governa; o mesmo vale para o fanatismo esportivo transformado em produto de consumo em escala global.

Romper com esse encantamento não significa abandonar o prazer do jogo, mas recusar-se a ser instrumento silencioso da máquina que lucra com ele. Significa exigir condições dignas para quem trabalha nos bastidores, questionar a vigilância disfarçada de segurança, recusar a naturalização de contratos precários travestidos de festa nacional. A verdadeira paixão pelo futebol não precisa de submissão cega; pode, e deveria, vir acompanhada da lucidez de perceber quem realmente sustenta o espetáculo — e de quem, ao final, embolsa o lucro enquanto a multidão canta.

A seita do espetáculo: quando torcer vira devoção que sustenta a exploração
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