Por Akracia – Fenikso Nigra

Entre 2024 e 2025, o consumo de antidepressivos cresceu 12,4% entre adultos brasileiros de 29 a 58 anos, segundo levantamento da Funcional Health Tech divulgado pela CNN Brasil. Já são a segunda classe de medicamentos mais usada no país, atrás só dos antibióticos. Dados do IBGE mostram que 10,2% da população adulta já recebeu diagnóstico de depressão. Em parte, esses números refletem algo positivo: menos estigma em torno de buscar tratamento. Ainda assim, resta uma pergunta difícil de evitar: por que tanta gente, ao mesmo tempo, relata exaustão, desesperança e um cansaço que não passa com uma noite de sono? Segundo a perspectiva anarquista, essa pergunta não se responde olhando só para cada pessoa isoladamente — é preciso olhar também para como o trabalho, o consumo e os vínculos humanos foram organizados nas últimas décadas.

Parte desse sofrimento nasce do modo como o capitalismo estrutura a vida cotidiana. Numa lógica de concorrência permanente, cada pessoa aprende a administrar a própria existência como projeto contínuo de aperfeiçoamento: currículo, corpo, patrimônio, rede de contatos, desempenho. A ideologia meritocrática converte tudo isso em prova de caráter — quem venceu, venceu por mérito; quem não venceu, ainda não se esforçou o suficiente — empurrando para segundo plano as condições sociais e econômicas que moldam profundamente as oportunidades de cada um. Quando o sucesso vira obrigação permanente, o fracasso deixa de ser experiência difícil e se transforma em sentença: culpa que a pessoa carrega sozinha, como se fosse falha de caráter, nunca reflexo de um jogo desigual desde a largada.

Essa mesma lógica organiza o trabalho. A maior parte da vida adulta é gasta executando tarefas cujo ritmo, metas e critérios de avaliação são decididos por outra pessoa. Horário, produtividade e desempenho ocupam o centro da rotina, enquanto a autonomia sobre o próprio tempo encolhe. O trabalho para de ser apenas meio de sobrevivência: passa a organizar praticamente tudo — o sono, o lazer, os vínculos, o corpo. Quando a insegurança quanto ao emprego nunca desaparece de vez, o desgaste deixa de caber inteiramente na explicação individual e passa a expressar, também, a forma como esse trabalho foi estruturado.

Em seguida, entra o consumo. Há muito o mercado aprendeu a transformar insatisfação em produto. Publicidade associa felicidade, reconhecimento e pertencimento à aquisição de bens e experiências, e cada compra promete preencher um vazio que raramente desaparece por completo. Mal se acomoda a satisfação de uma conquista, já surge o próximo lançamento, a próxima tendência, o próximo padrão de sucesso a perseguir. A insatisfação constante deixa de ser efeito colateral: vira o próprio combustível que alimenta a engrenagem do consumo seguinte.

Há ainda um quarto fator, mais silencioso: o enfraquecimento dos laços coletivos. Jornadas longas, insegurança de renda, troca constante de emprego e competição entre colegas corroem o tempo e a energia necessários para sustentar comunidade — vizinhança, sindicato, associação, amizade que dura. Quando essas redes se desfazem, o sofrimento passa a ser enfrentado sozinho, dentro de casa, tratado como assunto exclusivamente privado, mesmo quando suas raízes ultrapassam de longe a vida de qualquer indivíduo.

Para a tradição anarquista, esse conjunto de fatores não substitui o conhecimento produzido pelas ciências da saúde, nem oferece explicação única para transtornos mentais — depressão, ansiedade e outros sofrimentos psíquicos têm causas biológicas, psicológicas e sociais entrelaçadas. A crítica mira outro alvo: o risco de tratar todo esse sofrimento como questão estritamente pessoal, deslocando a atenção das condições materiais que o produzem em escala coletiva. Medicamento, psicoterapia e acompanhamento profissional seguem sendo recursos indispensáveis; sozinhos, porém, dificilmente resolvem um problema que também é estrutural. Enquanto reconhecimento social continuar atrelado a desempenho, acumulação e competição, e enquanto comunidade continuar cedendo espaço a essa lógica, essa exaustão coletiva tende a persistir — não como destino individual, mas como sintoma de um sistema que trata cada pessoa como projeto isolado, nunca como parte de algo que se sustenta em conjunto.

Quem estiver enfrentando sofrimento psicológico merece acolhimento e cuidado. Buscar apoio com profissionais de saúde mental, serviços especializados ou pessoas de confiança pode ser um passo importante nesse momento.

Quando o sofrimento vira rotina: saúde mental e a lógica do capitalismo
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