Por Akracia – Fenikso Nigra

Na cúpula da Otan, a declaração de que o cessar-fogo com o Irã chegou ao fim não chega como surpresa a quem observa há tempo a lógica que move os grandes blocos militares. Um cessar-fogo nunca foi promessa de paz duradoura entre Estados; foi sempre pausa tática, um intervalo que serve para reorganizar forças, testar limites e calcular o próximo movimento. Quando essa pausa se rompe por decisão unilateral de uma potência, fica exposto algo que raramente se diz com todas as letras: guerra e diplomacia, nesse tabuleiro, são a mesma ferramenta usada de formas diferentes, ambas a serviço da manutenção de hierarquias entre nações e da disputa por recursos estratégicos, sobretudo o petróleo e as rotas que o transportam pelo Golfo.

Chama atenção também a pressão renovada sobre a Groenlândia. Falar em anexação, mesmo envolta em linguagem diplomática, é reafirmar que fronteiras seguem sendo tratadas como propriedade a ser disputada entre potências, e que territórios habitados por comunidades inteiras podem virar peça de negociação geopolítica sem que sua vontade conte muito nessa equação. Primeiro vem o discurso sobre segurança e interesses estratégicos; depois, a naturalização da ideia de que um pedaço de terra e quem nele vive pode simplesmente mudar de dono; por fim, o silêncio das demais lideranças reunidas na cúpula, que preferem não confrontar abertamente quem financia boa parte da aliança militar da qual fazem parte.

É difícil não notar a incoerência de críticas dirigidas às nações aliadas dentro do mesmo espaço criado justamente para coordenar ação militar conjunta. A Otan nasceu e se sustenta como aparelho de guerra coletivo, e serve de lembrete de que os Estados, mesmo quando disputam entre si, seguem unidos na tarefa de expandir seu poder de fogo e de manter populações inteiras sob ameaça constante de conflito armado. Não existe bloco militar organizado a partir de baixo, pela vontade de quem vive nos territórios envolvidos; existe sempre uma cúpula, no sentido literal e figurado, decidindo por cima o que será feito com vidas que nunca foram consultadas.

Vale lembrar que retórica sobre cessar-fogos e territórios distantes não fica confinada a fronteiras longínquas. Toda escalada bélica movimenta indústria de armamento, aquece mercados financeiros ligados à defesa e justifica aumento de gasto militar em detrimento de áreas como saúde, moradia ou educação. Quem paga essa conta, direta ou indiretamente, raramente é quem decide sobre guerra e paz nos gabinetes e cúpulas internacionais.

Diante desse quadro, cabe reforçar que solidariedade entre povos não deve depender do que se decide em reuniões de chefes de Estado. Redes de apoio mútuo, articulação entre comunidades e recusa coletiva à lógica da guerra seguem sendo os caminhos mais consistentes para enfrentar decisões tomadas de cima para baixo, sem consulta e sem responsabilização. Entender esse episódio como parte de um padrão mais amplo, e não como fato isolado, ajuda a manter clareza sobre quem se beneficia da manutenção de tensões constantes entre Estados e quem, de fato, arca com o custo dessas escolhas.

Quem decide a guerra não morre nela
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