Por Akracia – Fenikso Nigra

Os partidos são constituídos para disputar o poder e defender os interesses de seus programas constitutivos. São criados como peças de sustentação do sistema, por mais que pensem ou tenham a intenção de fazer oposição ou, para alguns, de exercer uma vanguarda revolucionária. Segundo a perspectiva que orienta este texto, isso é uma ilusão. Por mais boa fé que tenham, ou por mais que realmente queiram avançar na luta por emancipação, a própria estrutura à qual pertencem limita o alcance dessa proposta revolucionária — o que torna seus discursos, na prática, inócuos, hipócritas ou demagógicos.

Existe um entendimento comum entre partidários de todas as matizes: essa disputa é “natural” na política, e não travá-la seria deixar uma lacuna para que outros a ocupem. Para vertentes anarquistas, porém, essa lógica é justamente o problema. Aceitar o tabuleiro como dado — disputar cargos, negociar alianças, formar maioria parlamentar — significa aceitar também as regras que estruturam o jogo. E essas regras, segundo essa leitura, foram feitas para que nada fundamental mude.

O anarquismo, sob essa ótica, não pode ser definido como um partido. Trata-se de uma proposta de emancipação total — social, política, econômica, cultural, ambiental — que não se partidariza porque busca transformação radical através da união de quem integra essa proposta, por meio de métodos de organização e educação também emancipatórios. Não é busca por poder, nem por vantagens para determinado grupo, seja ele oprimido ou opressor. Não é luta por migalhas de subsídio estatal que calem a boca e mantenham a população em resignação. E quando essa contenção falha, o aparato de repressão do Estado segue disponível para desmantelar, prender e assassinar quem discorda.

A história oferece um exemplo célebre desse padrão: em 1921, marinheiros de Kronstadt, que haviam apoiado a revolução russa desde o início, se rebelaram contra a burocratização do poder soviético — e foram esmagados pelo próprio Exército Vermelho, sob ordem do partido que dizia governar em nome deles. Segundo essa perspectiva, o episódio ilustra bem o argumento central: mesmo um partido nascido de intenção revolucionária, uma vez de posse do aparato estatal, tende a tratar dissenso popular como ameaça a ser eliminada, não como parte legítima do processo.

Segundo essa leitura, uma causa justa e igualitária dificilmente será reconhecida como legítima pelos critérios de moral e progresso que sustentam o capital e a democracia representativa — a não ser que sua aceitação preserve as vantagens de quem já detém poder. A proposta anarquista não ignora esse realismo: reconhece que sua base não é a teoria acadêmica, mas a observação de como partidos de todas as matizes se comportaram, na prática, uma vez inseridos no jogo político vigente.

A luta por reformas legais costuma ser morosa, cansativa e cheia de decepções. Essa mesma energia, segundo essa perspectiva, rende mais quando aplicada a ações diretas voltadas à emancipação: da conscientização até assembleias populares, fóruns coletivos de discussão e decisão tomada pelos próprios interessados. Um exemplo contemporâneo desse tipo de organização são as juntas de buen gobierno zapatistas, em Chiapas — estruturas de decisão coletiva que funcionam sem disputar eleições e sem depender do Estado mexicano para existir.

Não se espera que essas propostas sejam aceitas como lei pelo sistema vigente. É da prática cotidiana, constituída de forma coletiva e consensual por quem nela se interessa diretamente, que a proposta se torna real — e se renova a cada geração, sem perder o teor emancipatório. Isso rompe com o modelo partidário, já que relações interpessoais e responsabilidade direta o substituem. Exige compromisso individual, que não se pode exigir de outros — só de si mesmo, sobretudo num ambiente que cultiva desconfiança generalizada. A cada geração, cultiva-se senso crítico e autocrítica, base do livre pensamento: obra nossa, para nós, por nós, sem partidos, sem Estado, sem patrões, sem religião.

A luta e a organização direta não garantem vitórias em pequenas escaramuças ou reformas pontuais — asseguram, segundo essa tradição, a emancipação e a educação livres de todas as pessoas exploradas e oprimidas.

Por que a luta direta?
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