Por Akracia – Fenikso Nigra

O gesto de estender a mão a quem cai pode parecer, à primeira vista, um ato de generosidade inquestionável. Oferecer um prato de comida, uma cesta básica ou um cobertor a quem passa frio e fome é, sem dúvida, uma resposta humana à dor alheia. No entanto, para uma perspectiva anarquista, esse mesmo gesto, quando isolado e despido de intenção transformadora, corre o risco de se tornar um mecanismo sutil de perpetuação da miséria. A ajuda que alivia o sintoma sem confrontar a doença não é remédio; é anestésico. E todo anestésico, ao entorpecer a dor, adia o momento em que o corpo exigirá a cirurgia.

O assistencialismo, tal como praticado por instituições de caridade, governos ou mesmo por indivíduos de boa vontade, atua sobre as consequências da exploração, mas raramente toca em sua raiz. A miséria não é um acidente de percurso, um desajuste temporário ou fruto da má sorte individual. Ela é produzida diariamente, como subproduto necessário de um sistema que acumula riqueza nas mãos de poucos enquanto multiplica a penúria entre muitos. Cada geração de trabalhadores, ao produzir bens e serviços, vê o fruto de seu esforço escapar-lhe das mãos e converter-se em lucro para uma elite que não suou nem um minuto para obtê-lo. Do outro lado, essa mesma elite, nacional e estrangeira, aperfeiçoa seus mecanismos de extração e reduz seu próprio contingente, enquanto a massa de assalariados — tantas vezes chamada de proletariado — cresce em número e em despossessão. A desigualdade não é um efeito colateral; é o motor.

Nesse contexto, a ação assistencialista cumpre uma função ambígua. Ao amenizar a fome de hoje, ela retira da fome de amanhã a sua força de pressão. O miserável que recebe a esmola institucionalizada aprende a esperar por ela, a agradecer por ela, a depender dela. O tempo que poderia ser investido na organização coletiva, na greve, na ocupação ou na construção de redes autônomas de solidariedade é consumido pela fila do alimento, pelo cadastro no programa social, pela expectativa do favor que nunca se transforma em direito. O assistencialismo ensina, ainda que silenciosamente, que a solução vem de cima, de quem tem mais, de quem concede por bondade. Não ensina que a saída pode vir de baixo, da união entre iguais que decidem tomar para si o que lhes é devido por direito.

A pergunta que se impõe a quem deseja ajudar, a quem se dispõe a ser voluntário ou a quem doa seu tempo e seu dinheiro, é incômoda, mas necessária: até onde se quer chegar? Maquiar a fome com um prato de sopa é suficiente, ou se deseja extirpá-la para sempre? Aliviar a dor de um corpo ferido é louvável, mas será que não se estaria, com isso, apenas adiando a hora em que esse mesmo corpo se levantará para derrubar quem o fere? A ação assistencialista, quando não acompanhada de um projeto de transformação radical, torna-se o ópio que embala o conformismo. E o conformismo, ao contrário do que muitos imaginam, não é passividade inofensiva; é a condição que permite que a exploração continue.

A história das lutas sociais está repleta de momentos em que a consciência revolucionária despertou justamente quando as redes assistenciais falharam ou foram recusadas. As barricadas de Paris, as greves gerais, as ocupações de terra e as experiências de autogestão operária não nasceram da bondade de patrões ou da generosidade de governantes. Nasceram da recusa em aceitar migalhas como se fossem banquete. Nasceram da percepção de que a miséria não é destino, mas projeto; e que, como projeto, pode ser desmontado pela ação direta de quem a produz e a sofre. A transformação radical exige que cada pessoa se reconheça não como objeto de caridade, mas como sujeito de sua própria emancipação.

Para essa vertente do pensamento libertário, não se trata de condenar quem exerce a solidariedade imediata. Trata-se de perguntar se essa solidariedade se contenta em enxugar lágrimas ou se está disposta a secar a fonte que as produz. Uma sociedade verdadeiramente livre não precisará de filas de sopa, porque a fome terá sido abolida. Não precisará de cobertores doados, porque a moradia será um direito assegurado a todas as pessoas. Não precisará de cestas básicas, porque a riqueza produzida coletivamente será distribuída por critérios de necessidade e não de lucro. Essa é a diferença entre o favor e o direito, entre a esmola e a justiça, entre a assistência que acalma e a revolução que liberta.

Que o ato de ajudar não sirva, portanto, como desculpa para não lutar. Que a comida oferecida hoje não impeça a revolta que poderia garantir alimento para sempre. A mão que estende o pão pode, no mesmo movimento, apontar o caminho da organização. Mas, se apenas estender o pão, corre o risco de perpetuar, sem saber, a ordem que produz a fome. A verdadeira generosidade não é aquela que ameniza a miséria. É aquela que se recusa a conviver com ela.

Assistência é o freio da consciência revolucionária
Tags: