
Se observarmos com calma o que acontece a cada ciclo eleitoral, percebemos que estamos diante de algo que se parece muito mais com uma campanha de vendas do que com um processo de decisão coletiva. Os candidatos não são apresentados como pessoas com as quais se pode dialogar, mas como produtos a serem consumidos. As propagandas de televisão, os outdoors, os vídeos nas redes sociais e os jingles funcionam como o comercial de qualquer mercadoria. O que está em exposição é uma promessa de futuro embalada em sorrisos e frases de efeito. A política, nesse sentido, deixou de ser um campo de confronto de ideias para se revelar uma indústria como outra qualquer, movida por dinheiro, imagem e estratégias de mercado.
Primeiro, é preciso olhar para onde vai o dinheiro que financia essa máquina. O fundo partidário e o fundo eleitoral, alimentados com recursos públicos, somaram cerca de R$ 4,9 bilhões distribuídos entre os partidos apenas na eleição de 2022. Essa verba funciona como capital de giro de legendas que operam como empresas de aluguel de estrutura eleitoral. Além disso, há as doações de campanha, que historicamente vêm de setores econômicos concentrados: construtoras, bancos, agronegócio, grandes indústrias. A Operação Lava Jato mostrou como contratos de obras públicas se atrelavam a doações eleitorais não declaradas, e esse padrão não é exceção. Quem doa milhões não costuma fazê-lo por filantropia; o retorno vem na forma de leis favoráveis, contratos públicos, freios em investigações ou afrouxamento da fiscalização sobre o próprio setor doador. O voto, que deveria ser expressão de vontade popular, corre o risco de se tornar mercadoria num processo em que quem financia a campanha compra antecipadamente parte da gestão do Estado. Quem chega ao cargo já deve favores; quem está fora desse circuito permanece sem voz.
Depois, convém prestar atenção no papel do marketing eleitoral. Consultorias especializadas são contratadas para fabricar a imagem do candidato, escolhendo a cor da camisa, o tom de voz, as expressões faciais e até as palavras que podem ou não ser ditas em público. O objetivo, com frequência, não é apresentar um projeto político coerente, mas construir uma persona que venda bem. Pesquisas de opinião nem sempre servem para ouvir a população; muitas vezes testam qual mensagem tem mais apelo comercial. Debates eleitorais se aproximam, em boa medida, de programas de auditório, nos quais pesa tanto quem consegue lacrar, quem sai com o melhor meme, quem parece mais confiável aos olhos de quem assiste, quanto o conteúdo das propostas. Existem exceções, candidaturas de orçamento modesto que venceram apostando em mobilização direta. Mas essas exceções confirmam a regra: tornam-se notícia justamente por serem raras, e o sistema costuma reabsorvê-las rapidamente, cooptando suas lideranças ou isolando-as institucionalmente. Quem tem a campanha mais bem financiada e mais bem produzida parte com vantagem estrutural considerável.
Por fim, é importante compreender o que essa transformação da política em indústria significa para quem vive sob o Estado. Quando o voto se aproxima de mercadoria, a cidadania se aproxima de consumo. As pessoas passam a ser tratadas como eleitorado, termo frio que reduz seres humanos a números em uma planilha eleitoral. A participação se resume, com frequência, a escolher entre as opções oferecidas no cardápio, sem possibilidade de cozinhar algo diferente. Alguém poderia argumentar que existem reformas que tentam corrigir essas distorções, como teto de gastos e cotas de tempo de TV. Mas as vertentes anarquistas respondem que essas reformas operam dentro da mesma lógica que criticam, tentando tornar mais justa a distribuição de um poder que, na origem, já nasce concentrado nas mãos de quem controla o capital e o aparato estatal. Trocar as regras do jogo não muda o fato de que o jogo continua sendo jogado com as peças de sempre. O problema não é que a política está sendo mal feita: é que ela foi construída para funcionar assim. E enquanto o dinheiro continuar pesando decisivamente sobre quem aparece na televisão e quem consegue financiar uma estrutura de campanha, a ilusão de escolha plena permanecerá, na melhor das hipóteses, parcial. Recusar essa indústria é, portanto, um passo necessário para quem busca outra forma de organizar a vida em comum.
