
Por Akracia – Fenikso Nigra
Quando a terra tremeu na Venezuela, no fim de junho, o que se abriu sob os pés de milhares de pessoas não foi apenas uma fratura geológica, mas também uma fratura política que já vinha se alargando havia anos. Os números divulgados até agora — mais de três mil trezentas mortes confirmadas, dezenas de milhares de pessoas desaparecidas, bairros inteiros reduzidos a escombro — dizem menos sobre a força da natureza do que sobre a fragilidade de tudo aquilo que deveria proteger a vida coletiva e não protegeu.
Vale lembrar de onde vem essa fragilidade. Ao longo dos últimos vinte anos, o país investiu somas bilionárias em armamento: caças Sukhoi comprados da Rússia por mais de onze bilhões de dólares, tanques, blindados, sistemas antiaéreos, e mais recentemente uma fábrica instalada em solo venezuelano para produzir fuzis Kalashnikov e dezenas de milhões de cartuchos por ano. Enquanto isso, hospitais operavam sem estrutura mínima, necrotérios foram sobrecarregados em poucos dias e faltou até equipamento simples para remover escombro em busca de sobreviventes. Não é exagero notar o contraste: um Estado capaz de erguer linhas de produção de armamento, mas incapaz de garantir pás, geradores e ambulâncias suficientes para o próprio povo em momento de colapso. Se sobrou dinheiro para fuzil, sobrou para tudo o que sustenta a guerra; faltou para tudo o que sustenta a vida.
A presidência interina, assumida depois da captura de Maduro, tratou logo de garantir que não haveria “convulsão social”, como se o luto e a raiva de quem perdeu tudo fossem problema de ordem pública a ser contido, e não resposta legítima ao abandono. Essa frase sozinha já revela a lógica de qualquer aparato estatal diante da tragédia: primeiro, a preocupação em manter a aparência de controle; depois, o gerenciamento da dor alheia como questão de segurança; por fim, discursos de solidariedade nacional que custam pouco e resolvem menos ainda.
Enquanto isso, quem realmente sustentou a vida nos primeiros dias foi a vizinhança, foi quem cavou com as próprias mãos, foi quem dividiu água e comida sem esperar ordem de cima. Os corpos sem identificação, enterrados em valas numeradas, tornaram-se símbolo de uma gestão da morte que segue lógica burocrática até no momento em que deveria haver, antes de tudo, cuidado.
A ajuda internacional que chegou pela ONU e por outras agências certamente foi necessária, e ninguém em sã consciência recusaria alimento, água ou equipe de resgate. Mas vale perguntar por que sistemas de socorro global só se movem depois que a tragédia já aconteceu, e por que a reconstrução, quando vem, quase sempre reforça as mesmas hierarquias que deixaram a população desprotegida.
Uma perspectiva que desconfia do Estado como solução não nega a gravidade do momento nem despreza quem trabalha arduamente nas equipes de resgate. Reconhece, isso sim, que a lógica de comando central tende a chegar tarde, a distribuir de forma desigual e a priorizar, mesmo em plena crise humanitária, os símbolos de poder armado. Não é à toa que milícias inteiras foram organizadas ao redor de fuzis e mísseis “para a classe trabalhadora”, enquanto a mesma classe trabalhadora, agora soterrada, precisou improvisar pás com as próprias mãos.
O que sustentou vidas nesses dias foram redes de vizinhança, coletivos de ajuda mútua, pessoas que se organizaram sem esperar autorização nem hierarquia. Essa capacidade de auto-organização, muitas vezes invisibilizada pelos discursos oficiais, é o que merece ser lembrada e fortalecida, porque é ela que aparece toda vez que as instituições falham. Passados os primeiros onze dias de buscas, encerradas agora as operações internacionais de resgate, resta à população venezuelana reconstruir com os próprios meios aquilo que o poder central, ocupado em empilhar fuzis, jamais soube proteger.
