
Por Akracia – Fenikso Nigra
Entre 2022 e 2024, os países em desenvolvimento pagaram US$ 741 bilhões a mais em principal e juros da dívida externa do que receberam em novos financiamentos — a maior lacuna registrada em pelo menos cinquenta anos, segundo o Relatório da Dívida Internacional do Banco Mundial publicado em dezembro de 2025. O relatório descreve o fenômeno como “um refluxo financeiro sem precedentes”. A expressão é técnica e precisa: o capital não flui dos países ricos para os pobres, como sugere o vocabulário corrente da cooperação e do desenvolvimento. Ele flui em sentido oposto, de forma contínua, estrutural e crescente.
O estoque total da dívida externa das economias de baixo e médio rendimento atingiu novo recorde de US$ 8,9 trilhões em 2024. Em 2023, apenas o serviço da dívida — o pagamento de principal e juros — consumiu US$ 1,4 trilhão dessas economias, com os juros crescendo quase um terço em relação ao ano anterior e atingindo US$ 406 bilhões. Nos 22 países mais endividados do mundo, mais da metade da população não consegue sustentar a dieta diária mínima recomendada. A correlação entre o que sai pelos canais financeiros e o que falta nas mesas não é coincidência geográfica — é o mesmo mecanismo visto de ângulos diferentes.
O Brasil oferece um corte específico desse panorama global. Em 2025, o déficit em renda primária do país — que inclui remessa de lucros, dividendos e pagamentos de juros ao exterior — chegou a US$ 81,3 bilhões, o equivalente a mais de R$ 400 bilhões na cotação média do período. O Banco Central registra esse valor com naturalidade nos relatórios de contas externas, descrevendo-o como consequência esperada de uma economia que recebe mais investimento estrangeiro do que investe fora. A explicação é tecnicamente correta. O que ela omite é a conexão com a dinâmica doméstica: essa sangria externa ocorre em uma economia onde a taxa básica de juros encerrou 2025 em 15% ao ano — nível que atrai capital financeiro internacional ao mesmo tempo em que faz a dívida pública interna superar R$ 8,6 trilhões. Como resultado, os juros incorporados à dívida federal somaram R$ 879,9 bilhões no mesmo ano — valor superior ao orçamento combinado de saúde, educação e assistência social.
A narrativa da ajuda internacional opera sobre essa realidade como uma camada de névoa. Entre 2015 e 2019, cerca de 40% dos lucros das multinacionais foram transferidos para paraísos fiscais, reduzindo em 10% as receitas tributárias globais, segundo a UNCTAD. A Oxfam estima que US$ 3,55 trilhões em riqueza não tributada estavam escondidos em paraísos fiscais em 2024 — valor superior ao PIB da França e mais que o dobro do PIB combinado dos 44 países menos desenvolvidos do mundo. Nas últimas cinco décadas, apenas o continente africano perdeu mais de US$ 1 trilhão em fluxos financeiros ilícitos — montante equivalente ao total da ajuda oficial ao desenvolvimento recebida no mesmo período. Ajuda que entra por uma porta; riqueza que sai por outra, em volume muito maior, pela porta dos fundos.
Os organismos internacionais que administram parte dessa arquitetura — o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial — são também os credores e os árbitros das reestruturações de dívida. Quando um país em crise busca renegociar seus compromissos, é diante dessas instituições que apresenta seus planos de ajuste fiscal, seus cortes em subsídios, seus aumentos de impostos. O Quênia e a Nigéria percorreram esse caminho em 2024, depois que os pagamentos da dívida tornaram insustentável manter os serviços públicos básicos. A lógica é circular: o devedor precisa do credor para pagar o credor, e as condições do empréstimo determinam o que pode ser gasto no país que o contrai.
O mais recente relatório da ONU, lançado em abril deste ano, concluiu que as tarifas médias sobre exportações dos países menos desenvolvidos saltaram de 9% para 28% em 2025, em função das guerras comerciais iniciadas pelos Estados Unidos. O mesmo documento registrou que o déficit anual de financiamento para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável permanece em US$ 4 trilhões. As metas existem desde 2015. O fluxo do capital segue em sua direção de sempre.
