
Por Akracia – Fenikso Nigra
Quando um trabalhador acordar em São Paulo, Lima ou Bogotá, sabe que sua jornada renderá menos que ontem. Não por acaso. A relação é simples: quanto mais se produz na América do Sul, menos fica com quem produz. Os números confirmam o padrão. Na última década, a produtividade regional cresceu enquanto salários reais caíram ou estagnaram. No Brasil, um trabalhador de manufatura ganha hoje, descontada a inflação, praticamente o mesmo que ganhava em 2014. Na Colômbia e Peru, a trajetória é similar. A máquina funciona assim: lucro sobe. Salários descem. Quem deveria enriquecer junto fica para trás.
Essa dinâmica tem endereço. Decisões sobre o quanto pagam, quantas horas exigem e quando demitem não são tomadas nas vizinhanças onde as pessoas moram. São tomadas em escritórios onde ninguém precisa ouvir o não das famílias que perdem renda. Um gestor em São Paulo não vê o aperto no orçamento de uma costureira em Brás. Um acionista em Bogotá não dorme mal com o desemprego que sua decisão gera em Bogotá. O poder está nessa distância. Quanto mais longe a decisão, menos responsável parece quem a toma.
Nas cidades, o padrão se repete como variação. Primeiro vem a manufatura, depois a precarização. Uma fábrica chega com promessa de emprego formal. Gera, de fato, alguns postos. Mas depois exige flexibilidade. Modalidades de contrato proliferam. Contratos por tarefa. Demanda flutuante. Zero direitos. Muita gente trabalhando onde falta regulação porque a regulação é cara demais para o empregador. O mesmo trabalhador que fabrica uma peça por duas reais encontra a peça no mercado por quarenta. Sua participação: cinco por cento. O resto se distribui em cadeias que ele não vê.
No campo, a história toma outro caminho mas chega ao mesmo lugar. Grandes propriedades monocultoras precisam de colheita rápida. Contratam sazonais. Pagam à base de resultado por quilo apanhado. Uma safra de soja na Argentina ocupa centenas de pessoas por semanas. Depois desaparecem. Depois voltam. Depois não voltam porque máquinas colhem mais barato. Um agricultor familiar que deveria ser autossuficiente não consegue vender por preço justo porque a cadeia é dominada por três ou quatro empresas que ditam preço. Ele planta. Elas compram. Elas fixam quanto vale aquilo que levou meses para crescer. Ele não negocia. Aceita ou perde a colheita.
Que as pessoas se organizem é esperado. Ocupam fábricas no Brasil. Formam sindicatos na Bolívia. Criam cooperativas de consumo em Buenos Aires. Abrem bancos comunitários no Ceará. Essas experiências acumulam décadas. Mostram que quando as decisões voltam para perto de quem vive as consequências, as coisas mudam. Uma cooperativa de trabalho na periferia de Lima distribui ganhos de outra forma. Um banco comunitário em Fortaleza devolve credibilidade onde os bancos convencionais negam acesso. Um sindicato que para a produção por duas semanas consegue o que mensagens não conseguem. O poder funciona assim também: quando concentrado embaixo, obtém respostas.
Mas há obstáculo. Quanto mais essas iniciativas crescem, mais o Estado e o capital tentam regulá-las, cooptá-las ou destruí-las. Cooperativas se tornam empresas com gestor remunerado. Sindicatos assinam acordos que na prática flexibilizam direitos. Movimentos ocupam lugar no parlamento e esquecem das ruas. Essa captura é silenciosa. Não usa violência declarada. Usa “realismo”. Usa “viabilidade”. Usa “profissionalismo”. Usa a linguagem de quem conhece o sistema para dizer que o sistema é ineludível.
Onde está então a pessoa que trabalha. Não está só na fábrica. Está também nas decisões sobre como sua luta se institucionaliza. Está na pergunta de qual transformação merece seu tempo. Está na possibilidade concreta de decidir coletivamente, todos os dias, com quem trabalha, como trabalha, onde o resultado vai. A exploração do capital é técnica. A exploração depende de que as decisões fiquem longe. Aproximar a decisão. Distribuir o poder. Tornar impossível que uma pessoa tome por muitas.
Na luta somos pessoas dignas e livres!
