Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

O primeiro de maio marca mais que datas nos calendários. Resgata memórias de quem se organizou sem chefias, sem patroas, sem hierarquias impostas. Naquele dia em Chicago, 1886, trabalhadoras e trabalhadores se reuniam em círculos de discussão, em grupos de afinidade, em assembleias que decidiam coletivamente os rumos da luta. Não havia presidências burocráticas. Havia corpos que ousavam imaginar outro mundo possível.

Essa é a potência que a horizontalidade carrega até hoje. Ela rompe com a ideia de que decisões devem ser delegadas a representantes, líderes ou especialistas. Afirma, na prática, que quem vive a exploração é plenamente capaz de enfrentá-la. Não se trata de idealismo: trata-se de método. Sempre que a classe trabalhadora precisa resistir, a organização horizontal reaparece como ferramenta concreta.

Assembleias Como Espaço de Poder Direto

Quando uma assembleia funciona de forma genuinamente horizontal, algo raro acontece: a igualdade deixa de ser discurso e passa a ser prática vivida. Uma metalúrgica com três décadas de militância senta ao lado de quem acabou de chegar ao movimento. Uma lavadora de casas, uma eletricitária, uma jornalista precária: todas têm direito ao mesmo tempo de fala, ao mesmo poder deliberativo. A experiência não se transforma automaticamente em autoridade. O tempo de participação não vira poder acumulado.

Para que isso exista de fato, não basta boa vontade. É preciso construir práticas: rodadas de fala que garantem escuta ativa, facilitação rotativa para que nenhuma pessoa centralize mediação, elaboração coletiva de propostas que circulam, retornam modificadas, incorporam críticas. O consenso e o consentimento não são atalhos — são processos que exigem paciência e disposição para transformar posições individuais em decisões comuns.

Sim, é mais lento. Mas a velocidade nunca foi amiga de quem trabalha. A urgência do capital é a urgência da exploração. A organização horizontal cria outro tempo — o tempo necessário para que ninguém seja deixado de fora.

Horizontalidade Enfrentando Suas Próprias Contradições

A horizontalidade não pertence ao passado. Ela reaparece em ocupações urbanas, em acampamentos de sem-terra, em greves organizadas pela base, em redes de apoio mútuo que se formam nos bairros. Durante a pandemia, muitas comunidades se organizaram diretamente para garantir alimento e cuidado, sem mediação institucional. Coletivos de trabalhadoras domésticas deliberam sobre estratégias de resistência sem concessões a patronais.

Mas não há ingenuidade possível: estruturas de dominação não desaparecem quando declaramos igualdade. Elas atravessam os espaços coletivos com força material.

Quem teve acesso a educação formal tende a monopolizar discussões técnicas. Machismos, racismos, heteronormatividades não evaporam nas assembleias apenas porque acordamos em sermos igualitárias. Eles ressurgem nas falas interrompidas, nas formas de invisibilização, nas decisões tomadas enquanto corpos marginalizados estão ausentes. Lideranças informais emergem — às vezes pelo carisma, às vezes pelo acúmulo de experiência que a sociedade hierárquica tornou privilégio, às vezes pelos acessos materiais que apenas algumas possuem.

Existem também barreiras que o próprio capitalismo constrói contra a horizontalidade. Participar exige tempo. Mas trabalhadoras enfrentam jornadas exaustivas — dez, doze horas de labor que esvaziam corpos e mentes. Quem cuida de filhas pequenas, quem lida com deficiências, quem não tem recursos para deslocamento: todas essas pessoas encontram portas fechadas. O cansaço não é acaso. É estratégia. O capitalismo usa a fragmentação e a exaustão como ferramentas para impedir que nos organizemos. A horizontalidade não elimina essas desigualdades — ela precisa enfrentá-las ativamente, ou reproduzirá as mesmas opressões que combate.

Aprendizados da Resistência Concreta

A história das lutas mostra que a horizontalidade não é modelo pronto a ser implementado. É prática em constante construção, sempre em tensão com forças que a sabotam.

Funciona melhor quando reconhece limites e cria mecanismos específicos para enfrentá-los: rotação deliberada de tarefas para que nenhuma pessoa acumule experiência como poder; distribuição de responsabilidades que garanta aprendizado coletivo; formação política contínua sobre dinâmicas de opressão; atenção ativa às desigualdades internas. Quando uma assembleia percebe que uma voz monopoliza fala por privilégio educacional, há resposta: facilitação que cria espaços explícitos para quem não fala, que honra conhecimentos que não vêm de livros, que valoriza sabedoria de rua tanto quanto teoria. Não basta rejeitar hierarquias formais; é preciso desmontar também as informais.

Não há uma única forma correta de decidir coletivamente. Assembleias podem usar consenso, consentimento ou votação, dependendo do contexto. Podem ser presenciais ou digitais. O que importa não é a pureza do método, mas a capacidade real de garantir participação e autonomia. Pluralismo estratégico, nunca rigidez dogmática.

Sempre que trabalhadoras ocupam locais de trabalho e os colocam para funcionar sem patroas, sempre que decisões são tomadas diretamente por quem será afetado por elas, sempre que a organização dispensa chefias e representantes fixos — a horizontalidade deixa de ser ideia e se torna força material capaz de transformar a realidade.

Memória que Aponta Futuro

O primeiro de maio nos conecta a linhagens de resistência que sempre souberam: outro modo de organizar-se é viável. A assembleia não é invenção recente; é prática que antecede estados e empresas, retomada sempre que pessoas decidem assumir o controle de suas próprias vidas.

Avançar nessa direção exige mais que palavras de ordem. Exige construir, no cotidiano, formas concretas de sustentar a igualdade que defendemos. Exige reconhecer que fomos formadas por uma sociedade hierárquica — e que romper com isso é processo coletivo e contínuo. Exige encarar que o próprio sistema econômico trabalha contra nós, tentando nos cansar, nos separar, nos derrotar.

A transformação social não virá de cima. Não virá de governos, partidos ou instituições. Ela se constrói onde sempre começou: na organização direta, na ação coletiva, na recusa de qualquer forma de dominação.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

A Horizontalidade Como Prática Revolucionária: Da Assembleia à Transformação