Por ICN – Fenikso Nigra

Sobre fé em abundância, Estado generoso e violência que não entendeu o recado

Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, 90,7% dos brasileiros declaram alguma religião. Noventa e ponto sete. É quase todo mundo. É a fila do banco, o trânsito engarrafado, o vizinho que briga com você pelo muro. É um país quase inteiro ajoelhado — com uma estatística de violência que envergonharia qualquer nação em guerra declarada.

O mapa religioso brasileiro é de deixar qualquer sociólogo atônito. São 56,7% de católicos, 26,9% de evangélicos, 1,8% de espíritas e 1,7% de umbandistas e candomblecistas — um caleidoscópio de fés que convivem sob o mesmo céu tropical e, com frequência, sob a mesma laje de concreto. Os que se declaram sem religião somam apenas 9,3% da população. Em termos práticos: o Brasil é, de longe, o país mais religioso do continente mais religioso do planeta.

90,7%dos brasileiros têm alguma religião — 56,7% católicos, 26,9% evangélicos. Sem religião: apenas 9,3%.IBGE, Censo Demográfico 2022

Pena que os olhos fechados em oração pareçam não ver muito bem quando se abrem.

O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747 homicídios em 2023 — uma taxa de 21,2 mortes por 100 mil habitantes. São 125 pessoas assassinadas por dia. Um Boeing 747 lotado que cai, sem sobreviventes, a cada quatro dias. No pico, em 2017, o número chegou a 65.602 mortes em um único ano. O Atlas estima ainda que entre 2013 e 2023 outros 51.608 homicídios permaneceram ocultos nas estatísticas — mortes que o Estado não soube classificar e que a opinião pública jamais contabilizou.

45.747homicídios em 2023 — 125 por dia. No mesmo ano, 3.903 mulheres foram assassinadas: 13 por dia, com subnotificação estimada de 17%.Atlas da Violência 2025 — Ipea / FBSP

Há algo de profundamente surreal nisso. Um povo que enche templos às sextas-feiras e lidera rankings de violência doméstica aos sábados. As vítimas desse massacre cotidiano viviam, em sua maioria, sob o mesmo teto de pessoas que, muito provavelmente, também declararam ter religião ao recenseador do IBGE.

“Um povo que enche templos às sextas-feiras e lidera rankings de violência doméstica aos sábados.”

A intolerância, por sua vez, não poupa nem as próprias religiões. Em 2023, o Disque Direitos Humanos registrou 1.478 denúncias por intolerância religiosa — aumento de 80% em relação ao ano anterior. As vítimas preferenciais são os praticantes de candomblé, umbanda e demais religiões de matriz africana: pesquisa do projeto Respeite o Meu Terreiro revelou que 91,7% dos sacerdotes afro-brasileiros ouvidos relataram que seus discípulos já sofreram alguma forma de intolerância. Apenas 5,6% chegaram a recorrer ao Disque 100. O agressor, em geral, é cristão. Praticante.

1.478 denúncias de intolerância religiosa em 2023 — alta de 80% sobre 2022. Alvo principal: religiões afro-brasileiras, num fenômeno que pesquisadores chamam de racismo religioso.Disque 100 — Ministério dos Direitos Humanos, 2023
· · ·

Mas a antinomia não para no cidadão. O Estado — que a Constituição de 1988 declarou laico com letras grandes e solenidade republicana — age como se tivesse assinado um contrato diferente. O Censo 2022 do IBGE revelou que o Brasil possui 579,8 mil estabelecimentos religiosos — contra 264,4 mil escolas e 247,5 mil unidades de saúde. O país tem mais templos do que escolas e hospitais somados.

579,8 mil estabelecimentos religiosos no Brasil — mais do que os 511,9 mil entre escolas e unidades de saúde somadas. São 286 templos por 100 mil habitantes; 130 escolas e 122 unidades de saúde.IBGE, Censo 2022

Toda essa infraestrutura espiritual opera, quase integralmente, livre de tributos. A imunidade tributária aos templos é constitucional desde 1946. A reforma tributária aprovada ao final de 2023 foi além: ampliou o benefício para organizações ligadas às igrejas. Uma estimativa do próprio governo federal projetou renúncia fiscal de R$ 1,4 bilhão nos quatro anos seguintes — apenas com uma das medidas sancionadas.

R$ 1,4 bi de renúncia fiscal estimada em 4 anos com uma única medida da reforma tributária de 2023. Uma emenda anterior vetada custaria até R$ 2,9 bilhões ao erário.CNN Brasil / Liderança do Governo no Congresso, 2023

O braço político não é menos musculoso. A Frente Parlamentar Evangélica chegou à legislatura atual com 228 integrantes — 202 deputados federais e 26 senadores, representando mais de 39% da Câmara. Cultos são realizados no auditório do Congresso Nacional. O Estado laico observa, de paletó, com um hinário na mão.

228 parlamentares na Frente Evangélica — 202 deputados e 26 senadores, mais de 39% da Câmara. Recorde histórico. Poder360 / Câmara dos Deputados, 2024
· · ·

Não se trata de negar o papel da fé na vida das pessoas. A religiosidade brasileira é genuína, múltipla e criativa. Para milhões, a igreja é a única rede de apoio real num país que falhou em tantas outras formas. Não é a fé que está errada. É a confusão entre espiritualidade e poder. Entre o templo como abrigo e o templo como empresa blindada pelo Estado. Entre o mandamento e o mandato.

Um país em que 90,7% das pessoas professam alguma crença deveria produzir, por força de qualquer lógica moral mínima, resultados visivelmente distintos: menos 45 mil assassinatos por ano, menos mulheres mortas a cada 13 horas, menos terreiros incendiados por praticantes de outras religiões. Se toda aquela fé produzisse o que promete, o Brasil seria um escândalo de bondade.

“Rico em templos, pobre em misericórdia. Generoso com igrejas, avarento com hospitais. Laico na Constituição, confessional na prática.”

Deus, dizem, é brasileiro. Mas ele deve estar, como todo bom brasileiro, esperando na fila — enquanto a casa pega fogo e o dízimo passa na frente.

Fontes: IBGE, Censo Demográfico 2022 · Ipea/FBSP, Atlas da Violência 2025 · Ministério dos Direitos Humanos, Disque 100 (2023) · Poder360 / Câmara dos Deputados (2024) · CNN Brasil (2023) · Projeto Respeite o Meu Terreiro / Renafro (2022)
Deus é brasileiro — mas alguém esqueceu de avisar ao brasileiro