Por Akracia – Fenikso Nigra

O clube que deixou de ser seu

Por muito tempo, a relação entre torcedores e clubes de futebol foi descrita — e vivida — como uma forma de pertencimento que escapava à lógica mercantil. O dinheiro sempre esteve presente: ingressos eram vendidos, jogadores eram negociados, patrocinadores buscavam visibilidade. Ainda assim, havia uma dimensão simbólica que resistia à redução econômica. O clube era extensão de identidade territorial, familiar e de classe — parte da memória de um bairro, de uma cidade, de uma comunidade. Torcer era, em certa medida, uma forma de afirmar de onde se vinha e com quem se estava.

Esses laços não desapareceram, mas foram progressivamente reconfigurados por transformações que se aceleraram nas últimas três décadas. A televisão desempenhou papel decisivo nesse processo. À medida que os direitos de transmissão passaram a movimentar bilhões, o centro de gravidade do futebol se deslocou das arquibancadas para as telas. Os horários dos jogos deixaram de responder às conveniências dos torcedores presentes e passaram a obedecer às grades das emissoras e aos interesses dos anunciantes. O estádio, antes espaço de encontro e participação coletiva, foi sendo progressivamente remodelado: cadeiras individuais, restrições ao acesso de grupos organizados, preços que tornaram a presença física um privilégio de renda média para cima, substituição de setores populares por áreas destinadas a consumidores de maior poder aquisitivo. A experiência foi higienizada, controlada e, nesse processo, esvaziada de parte do que a tornava irredutivelmente coletiva.

A etapa seguinte foi a financeirização. Clubes passaram a ser tratados como ativos: fundos de investimento, conglomerados empresariais e bilionários adquiriram equipes não por qualquer vínculo com suas comunidades, mas pelo potencial de valorização econômica, influência política ou projeção de imagem. A Premier League inglesa se tornou o caso mais documentado: enquanto acumulava receitas recordes e ampliava sua audiência global, milhares de torcedores históricos eram expulsos dos estádios pelos preços crescentes. Comunidades que ajudaram a construir a identidade de clubes centenários passaram a ocupar posição periférica em instituições que operam prioritariamente para investidores, patrocinadores e mercados internacionais. O que havia sido construído por gerações tornou-se objeto de compra e venda.

No Brasil, a adoção do modelo de Sociedade Anônima do Futebol aprofundou uma tendência semelhante. A narrativa dominante apresenta a entrada de investidores privados como solução para décadas de má gestão — e os problemas de gestão eram reais. Mas a questão que raramente entra no centro do debate é outra: quem passa a controlar o clube e em benefício de quem ele existirá. A profissionalização administrativa pode resolver desequilíbrios financeiros sem tocar na concentração de poder. Frequentemente, transfere decisões que antes pertenciam, ainda que de forma limitada, aos associados para grupos econômicos cujo compromisso principal é com a rentabilidade do investimento.

Ao redor do futebol consolidou-se, nesse mesmo período, uma vasta indústria dedicada à monetização da paixão popular. Canais de análise tática, reality shows sobre bastidores, coleções de camisas limitadas, apostas esportivas, fantasy leagues que transformam atletas em ativos individuais, tokens digitais de momentos históricos — cada uma dessas camadas converte emoções, memórias e identidades em fontes permanentes de extração de valor. O torcedor deixa de ser apenas espectador ou participante: torna-se consumidor, produtor involuntário de conteúdo e fonte de dados utilizados para refinar continuamente os mecanismos de monetização do seu próprio envolvimento.

A contradição que emerge desse panorama é estrutural. O futebol continua dependendo profundamente do vínculo afetivo das pessoas — sem paixão genuína, o produto perde sentido e valor. Mas as estruturas que o governam trabalham sistematicamente para transformar esse vínculo em mercadoria, o que corrói, em ritmo lento e desigual, exatamente aquilo de que dependem. Formas de resistência persistem: torcidas organizadas que recusam a gentrificação dos estádios, movimentos que contestam mudanças societárias, clubes geridos coletivamente em circuitos menos visíveis. Essas experiências coexistem com gerações que consomem futebol principalmente por telas, com lealdades mais fluidas e menos atadas à geografia ou à história de um clube específico.

O futebol sempre foi um espelho amplificado das tensões do seu tempo. O que o espelho reflete agora é a dificuldade crescente de manter qualquer espaço de identificação coletiva com lógica própria — e o que se perde, nesse processo, dificilmente aparece nos balanços financeiros que anunciam temporada após temporada de receitas recordes.

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