Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Copa do Mundo 2026: futebol, poder e a disciplina que nunca tira folga

Hoje, 27 de junho de 2026, encerra-se a fase de grupos da maior Copa do Mundo da história. Quarenta e oito seleções, três países-sede, cento e quatro jogos, milhões de pessoas com os olhos fixos nas telas. O Brasil terminou na primeira colocação do Grupo C, e o país vibra antecipando o mata-mata. É o momento em que o futebol assume sua função mais eficiente: costurar, por algumas semanas, a ilusão de que pertencemos todos ao mesmo projeto. Mas há costuras que revelam a roupa por dentro — e esta Copa não é diferente.

A FIFA bloqueou uma inspeção trabalhista planejada no Estádio Azteca, no México, durante as reformas para o torneio. O sindicato internacional de trabalhadores da construção denunciou que inspetores foram impedidos de avaliar as condições do canteiro de obras, reacendendo preocupações sobre violações de direitos semelhantes às que marcaram a preparação da Copa do Catar. Também surgiram denúncias envolvendo trabalhadores migrantes contratados por subempreiteiros sem registro adequado, expostos à perda de direitos básicos. Não é coincidência. É estrutura.

O espetáculo esportivo exige infraestrutura. E infraestrutura, no capitalismo contemporâneo, significa reduzir custos até o limite — inclusive o custo da vida humana. Entre concreto, aço e arquibancadas, a variável mais fácil de comprimir continua sendo o trabalho. O trabalhador deixa de ser sujeito da obra para tornar-se apenas mais um insumo cujo preço precisa cair. Se puder ser terceirizado, melhor. Se puder ser invisível, melhor ainda. Se puder ser descartado quando a obra terminar, perfeito para quem administra os lucros.

A precarização não é um acidente do sistema; é um mecanismo de disciplina. Quanto maior o medo do desemprego, menor o poder de recusa de quem trabalha. Quanto menor esse poder de recusa, menores os salários, maiores as jornadas, mais frágeis os direitos e mais lucrativo se torna o negócio. O desemprego transforma-se, assim, numa ferramenta política de domesticação — e o mercado de trabalho precarizado garante que sempre haverá alguém condenado pela necessidade a aceitar menos.

Cada Copa recente revela essa engrenagem em movimento. No Catar, milhares de trabalhadores migrantes morreram ao longo da década de preparação do Mundial, enquanto as discussões sobre quantas dessas mortes estavam diretamente ligadas às obras serviram, muitas vezes, para obscurecer uma realidade mais simples: o modelo de exploração que sustentou o evento nunca esteve em julgamento — apenas seus números. No Brasil, em 2014, comunidades inteiras foram removidas para abrir espaço às obras e trabalhadores morreram durante sua execução. O endereço muda. A lógica permanece.

Do lado de cá, entre quem assiste aos jogos, a disciplina assume outra forma. A legislação brasileira não obriga empresas a liberar empregados durante as partidas da Seleção. Enquanto a publicidade vende a fantasia de que “o Brasil para”, milhões continuam trabalhando normalmente ou calculando se podem faltar sem colocar o próprio salário em risco. Quem se ausenta sem autorização pode sofrer descontos e outras consequências previstas em lei. O espetáculo promete uma pausa coletiva. O trabalho lembra quem realmente controla o relógio.

A mesma lógica atravessa as fronteiras. Torcedores de diversos países enfrentaram restrições migratórias para entrar nos Estados Unidos durante esta Copa. Enquanto a FIFA insiste no discurso da neutralidade política, adapta-se com impressionante facilidade às exigências dos governos e dos interesses econômicos que financiam o torneio. Neutralidade, no vocabulário das grandes organizações, costuma significar apenas não contrariar quem detém dinheiro e poder.

Nem o planeta escapa. Estudos independentes estimam que a pegada de carbono desta Copa supera amplamente a do Mundial anterior, impulsionada pelos deslocamentos entre três países-sede distribuídos por um continente inteiro. Ao mesmo tempo, a FIFA exibe campanhas sobre sustentabilidade enquanto celebra contratos de patrocínio com empresas ligadas à indústria do petróleo. O marketing verde tornou-se mais uma modalidade esportiva.

O futebol, em si, nunca foi o problema. O jogo continua produzindo beleza, criatividade e pertencimento genuíno. O que envelhece mal é a engrenagem corporativa que transforma tudo isso em mercadoria, em plataforma diplomática, em ativo financeiro e em instrumento de disciplina social. Futebol e FIFA não são a mesma coisa — e confundi-los é exatamente o que o espetáculo precisa que façamos.

O espetáculo funciona porque nos convida a esquecer por noventa minutos. Enquanto comemoramos um gol, alguém limpa o estádio sem contrato digno. Enquanto discutimos impedimentos, alguém cruzou fronteiras para trabalhar sem proteção. Enquanto repetimos que “o Brasil parou”, milhões seguem produzindo porque parar continua sendo um privilégio. Não se trata de recusar a alegria do jogo — trata-se de recusar a anestesia que vem junto com ela. A maior vitória do espetáculo não é fazer todos amarem o futebol. É fazer todos aceitarem como natural o mundo que o torna possível.

O espetáculo e suas costuras
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