
Por Anarkia – Fenikso Nigra
Uma greve de metrô para a cidade.
Em 28 de novembro de 2023, São Paulo chegou a 630 quilômetros de lentidão às oito da manhã. Não foi uma catástrofe natural. Não foi uma invasão. Foi uma greve de trabalhadores do Metrô e da CPTM. Bastou que quem move a cidade interrompesse o trabalho para que a cidade revelasse sua dependência.
A Justiça determinou operação integral nos horários de pico e funcionamento parcial no restante do dia. A Lei de Greve fala em negociação. Mas, quando se trata de serviço chamado essencial, a negociação tem limite: se o acordo não serve à continuidade da máquina, entra a ordem. O trabalhador pode decidir parar — desde que a parada não pare demais.
A Lei 7.783 lista as atividades que o Estado considera essenciais: água, energia, gás, hospitais, transporte coletivo, telecomunicações. A justificativa parece irrefutável. São serviços cuja interrupção ameaça a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população.
Mas a pergunta começa justamente aí: quem escreveu essa lista? E, sobretudo, quem ficou de fora?
O transporte é essencial porque sem ele a cidade trava. Mas o trabalhador que dirige, opera, limpa, conserta e vigia esse transporte não recebe, por isso, mais poder sobre sua própria vida. Recebe mais obrigação. A palavra “essencial” não vira autonomia. Vira escala, punição e ameaça de abusividade.
Durante a pandemia, entregadores de aplicativo foram tratados como indispensáveis. A comida precisava chegar. O remédio precisava chegar. A mercadoria precisava chegar. Em 2024, o Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais e aplicativos; 485 mil atuavam principalmente em entregas. A renda média mensal dos plataformizados foi de R$ 2.996, mas ela exigia, em média, 44,8 horas de trabalho por semana. Por hora, ganhavam menos do que os trabalhadores não plataformizados.
Usam a palavra flexibilidade, uma palavra elegante para dizer que o risco foi transferido.
A empresa não compra bicicleta, moto, gasolina, manutenção, chuva, acidente, assalto ou tempo perdido. Compra a entrega pronta. Compra o corpo disponível. Compra a urgência de quem não pode recusar corrida. E, quando a cidade recebe o pedido na porta, chama isso de conveniência.
Essencial para quem?
Para quem pede. Para quem lucra. Para quem administra a tela. Não necessariamente para quem atravessa a cidade com uma mochila nas costas, sem a certeza se vai estar inteiro ou não.
A educação revela outra contradição. É direito fundamental. Sem ela, não há formação, autonomia, memória coletiva nem possibilidade real de escolha. Ainda assim, ela não aparece no rol de atividades essenciais da Lei de Greve. Isso não significa que professores sejam dispensáveis. Significa que a lei distribui a urgência conforme a lógica de quem governa a circulação das coisas, do capital e da ordem.
Em 2024, professores da rede municipal de São Paulo entraram em greve reivindicando reajuste salarial, progressão de carreira e melhores condições de trabalho. A proposta da prefeitura era de 2,16%. A greve não paralisou apenas escolas: expôs a distância entre dizer que educação é prioridade e tratar quem educa como custo a ser contido.
No Chile, em outubro de 2019, o aumento de 30 pesos na tarifa do metrô detonou um ciclo de protestos que ultrapassou em muito o preço da passagem. “Não são 30 pesos, são 30 anos”, diziam as ruas. O transporte era necessário. Mas necessário não quer dizer acessível. Uma coisa pode ser indispensável e, ainda assim, ser organizada para excluir.
É assim que a palavra “essencial” opera: ela não descreve apenas o que sustenta a vida. Ela organiza prioridades. Decide o que deve funcionar a qualquer custo e quem deve pagar esse custo.
A burocracia chama isso de classificação. O mercado chama de eficiência. O trabalhador chama de vida.
Quando o metrô para, a cidade grita. Quando o entregador trabalha doze horas para sobreviver, a cidade pede mais rápido. Quando o professor para, dizem que as crianças não podem esperar. Mas quem espera há décadas por salário, estrutura, descanso, segurança e dignidade?
A sociedade exige continuidade de quem trabalha. Mas não garante continuidade de renda, de saúde, de moradia, de futuro. Um impasse que sempre sobra para que é explorada e oprimida, geração após geração!
O Estado protege o serviço. A empresa protege o lucro. E quem sustenta ambos recebe a ordem de continuar.
Talvez a pergunta não seja apenas quem decide o que é essencial. Talvez seja outra: por que quem faz o essencial não decide nada sobre as condições em que vive?
Enquanto essa resposta estiver nas mãos de gabinetes, tribunais, conselhos de administração e algoritmos, “essencial” será apenas outro nome para obediência.
E nenhuma vida nasceu para ser infraestrutura de lucro.
