Por Akracia – Fenikso Nigra

Em abril de 2026, o governo federal anunciou que o déficit habitacional brasileiro havia caído pelo segundo ano consecutivo, chegando a 5,77 milhões de domicílios — o menor patamar da série histórica. Entre 2023 e 2024, 441 mil famílias deixaram de compor o déficit. O dado importa: para quem precisa de uma casa, toda moradia conquistada importa. Mas a celebração oficial também revela o limite da métrica e da política que ela sustenta. O Estado contabiliza unidades, contratos e percentuais; não mede adequadamente quem pode permanecer na cidade, perto do trabalho, da escola, da saúde e longe das áreas de risco.

O principal componente do déficit não é a inexistência material de paredes e telhados. É o ônus excessivo com aluguel: em 2024, 3,58 milhões de domicílios tinham famílias comprometendo mais de 30% da renda com locação. Esse número caiu, mas continua sendo a maior parte do problema. A moradia existe; o acesso a ela é bloqueado pelo preço. Há imóveis vazios, apartamentos usados como reserva de valor, terrenos retidos à espera de valorização. Ainda assim, milhões de pessoas pagam uma parcela crescente da renda para não perder o endereço. Não se trata de uma falha ocasional — é o funcionamento regular de um mercado que organiza o solo urbano como mercadoria e a casa como ativo financeiro. Quem não pode pagar é empurrado para mais longe, para habitações precárias, para áreas sem infraestrutura ou para o endividamento permanente.

A expansão das locações de curta duração agrava essa disputa nas áreas onde a moradia já é cara e escassa. O Airbnb movimentou R$ 99,8 bilhões no Brasil em 2025, crescimento de 22% em relação ao ano anterior, consolidando o país como o terceiro maior mercado global de anfitriões da plataforma. Nos bairros de Ipanema e Copacabana, os anúncios de aluguel de curta duração cresceram 24% desde 2019, comprimindo a oferta de locação de longo prazo justamente onde a infraestrutura urbana é mais densa. Um imóvel alugado por diária rende em média três vezes mais do que alugado por contrato anual. O mercado responde a esse incentivo com precisão aritmética. Plataformas digitais transformam bairros inteiros em carteiras de investimento e convertem a presença de moradores em oportunidade de rentabilidade — em vez de casas, ativos; em vez de vizinhos, hóspedes.

Em São Paulo, essa lógica alcançou inclusive imóveis de Habitação de Interesse Social. Em maio de 2025, a prefeitura proibiu o uso dessas unidades em plataformas de aluguel de curta duração, depois de constatar que moradias produzidas com recursos públicos para atender famílias de baixa renda estavam sendo apropriadas como investimento privado. Em abril de 2026, o Airbnb iniciou a remoção de anúncios irregulares após receber lista oficial da prefeitura. O Estado que subsidia o mercado imobiliário em nome da política social precisou intervir para impedir que seu próprio subsídio fosse convertido em renda para proprietários. A fiscalização chegou depois da distorção — como de costume, porque o Estado tende a administrar os efeitos da desigualdade que ajuda a produzir. Primeiro financia empreendimentos e regula o solo em favor da valorização; depois anuncia programas para remediar a exclusão que esse modelo fabrica.

O Minha Casa Minha Vida reduziu parte do déficit e garantiu moradia a muitas famílias — e também carrega sua própria contradição. Quando conjuntos habitacionais são produzidos em áreas periféricas, onde a terra custa menos e a infraestrutura chega depois, a política habitacional pode entregar uma chave sem entregar cidade. Moradia não é apenas uma unidade construída: é transporte, escola, saúde, saneamento, tempo para viver e segurança diante das chuvas. Uma casa distante de tudo pode reduzir uma estatística e, simultaneamente, ampliar a dependência de quem mora nela.

A crise climática torna essa contradição mais precisa. Enchentes, deslizamentos e ondas de calor não atingem territórios de maneira neutra — encontram sistematicamente as mesmas áreas onde vivem pessoas afastadas dos bairros centrais pelo preço da terra e do aluguel: margens de córregos, encostas, loteamentos sem drenagem, bairros sem arborização. O número de desastres climáticos no Brasil cresceu 460% em relação aos anos 1990. A precariedade habitacional e a exposição climática não são crises separadas: são a mesma desigualdade observada em momentos diferentes — primeiro na dificuldade de conseguir uma casa, depois na dificuldade de sobreviver nela.

O déficit habitacional pode continuar caindo. A cidade continua expulsando.

A cidade que não cabe em si mesma
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