
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
O mundo arde enquanto eles negociam o preço do barril
Sobre o colapso climático, a indústria da negação e a única saída que não passa pelo Estado nem pelo mercado.
No verão de 2025, a Europa voltou a pegar fogo. Grécia, Portugal, sul da França. Os termômetros no hemisfério norte registraram valores que algumas décadas atrás seriam considerados ficção científica. Redes elétricas colapsaram sob pressão, hospitais operaram no limite e trabalhadores morreram de exaustão térmica em depósitos de logística cujos donos seguiam registrando lucros recordes. E o que fizeram os governos? Declararam emergência, criaram comitês, adiaram metas — e liberaram mais licenças de extração.
Não é uma contradição passageira. Não é incompetência. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.
“A crise climática não é uma falha isolada do capitalismo. Ela é o capitalismo em pleno funcionamento — a externalidade que transbordou para o mundo físico e não cabe mais dentro dos relatórios de resultados.”
A indústria da negação
Negar, minimizar, normalizar — e repetir
A negação climática evoluiu. O negacionismo bruto dos anos 1990 — “o aquecimento não existe”, “é ciclo natural” — perdeu terreno porque tornou-se indefensável. Foi substituído por algo muito mais eficiente: a normalização. Hoje não é mais preciso negar os recordes de temperatura. Basta tratá-los como inevitáveis. “O verão sempre foi quente.” “Temos que nos adaptar.” O debate desloca-se silenciosamente da prevenção para a administração permanente do desastre.
Essa mudança não aconteceu por acaso. Durante décadas, empresas do setor fóssil financiaram campanhas sistemáticas de desinformação — colocando em dúvida conclusões científicas que seus próprios estudos internos já corroboravam. Os documentos internos da ExxonMobil, tornados públicos por investigações jornalísticas e processos judiciais, mostram que a empresa tinha conhecimento consistente dos riscos climáticos muito antes de eles virarem debate público. Sabia. Mentiu. Continuou extraindo.
O resultado: enquanto as emissões cresciam, os governos seguiam subsidiando o setor. O FMI estima que esses subsídios — incluindo apoio fiscal direto e os custos ambientais e sociais não incorporados aos preços — somam vários trilhões de dólares por ano. O Estado que deveria regular é o mesmo Estado que financia. A contradição não é acidental. É estrutural.
O paradoxo do crescimento
Mais petróleo em pleno colapso — e ninguém pisca
Em 2024, enquanto as calotas polares derretiam em ritmo acelerado, a produção global de petróleo bateu novos recordes históricos. Os Estados Unidos consolidaram-se como o maior produtor de petróleo de toda a história humana. Após a invasão da Ucrânia, governos europeus — que usavam a retórica da transição energética como cartão de visita — correram para assinar contratos com novos fornecedores fósseis e reativaram usinas a carvão que estavam sendo desativadas. Com aplausos bipartidários.
A expansão das energias renováveis é real e necessária. Mas ela não altera, sozinha, a lógica do problema. Dentro de um modelo econômico baseado em crescimento permanente, qualquer ganho de eficiência tende a ser consumido pelo aumento do consumo total — o chamado efeito rebote. Produzimos energia mais limpa; produzimos mais, consumimos mais, extraímos mais. A acumulação não tem freio interno. Ela só para quando algo externo a interrompe.
“Capitalismo verde não é transição. É a mesma lógica com painel solar no telhado e certificado de carbono na parede.”
O problema nunca foi tecnológico. É político. A energia solar descentralizada ameaça a lógica do monopólio. A autogestão alimentar ameaça o agronegócio. A autonomia comunitária ameaça a dependência que mantém eleitorados cativos e mercados cativos ao mesmo tempo. É por isso que é dificultada, burocratiuzada, quando não diretamente criminalizada — pelos mesmos Estados que dizem querer uma “transição energética justa”.
O que fazer
Ação direta, autogestão, energia como bem comum
A história da regulação ambiental é a história de conquistas arrancadas por pressão popular — e depois esvaziadas por lobby corporativo assim que o movimento baixou a guarda. Limitar a resposta à espera por reformas institucionais significa aceitar que os mesmos atores responsáveis pela expansão fóssil conduzam também sua redução. É uma aposta que a evidência histórica não sustenta.
A ação direta tem registro concreto: bloqueios organizados contra gasodutos e terminais de GNL, ocupações de terras para agricultura ecológica, sabotagem de maquinário de desmatamento, redes comunitárias de distribuição de energia solar em periferias que o sistema elétrico formal nunca alcançaria com justiça tarifária. Não são gestos simbólicos. São interrupções reais numa cadeia de destruição que depende da passividade de quem está sendo destruído.
A autogestão energética não é utopia — é técnica com endereço. Cooperativas solares em bairros populares, microredes geridas por assembleias comunitárias, hortas urbanas integradas a sistemas de compostagem e captação de água, grupos de consumo que rompem com cadeias de abastecimento predatórias. Tudo isso existe. Tudo isso funciona. E tudo isso demonstra que outras formas de produzir, distribuir e decidir sobre energia e alimento são viáveis — quando a prioridade é a necessidade de quem vive ali, não a rentabilidade de quem investe de longe.
O desafio não é descobrir o que fazer. É ampliar o que já existe, fortalecer sua autonomia e recusar a dependência de estruturas cuja lógica é incompatível com qualquer ideia séria de sustentabilidade.
Conclusão
Organizar ou administrar o fim
A crise climática é a crise do capitalismo tornada atmosfera. É o modelo econômico que trata a natureza como fonte inesgotável de recursos e o ar como depósito gratuito de resíduos — e que agora colhe o que plantou em escala planetária.
Não há reforma que resolva isso por dentro. Não porque reforma seja inútil em qualquer contexto, mas porque o problema aqui não é um desvio — é o funcionamento normal. Governos anunciam metas climáticas e assinam licenças de extração no mesmo dia. O mercado precifica o carbono e usa o dinheiro para financiar mais extração. A contradição é o produto, não o defeito.
A resposta está em construir desde baixo: cooperativas, redes de solidariedade, territórios organizados, comunidades capazes de decidir coletivamente sobre os recursos dos quais dependem. Não para administrar o colapso com mais eficiência. Para romper com a lógica que o produz.
O mundo arde. A hora não é de petições. É de ruptura.
