
Boa parte da mobilização política das últimas duas décadas passou, em algum momento, por uma tela. Plataformas de rede social ajudaram a espalhar convocatória, driblar cobertura de imprensa tradicional e coordenar gente que nunca havia se encontrado pessoalmente. Ao mesmo tempo, essas mesmas plataformas pertencem a poucas corporações bilionárias, operam sob vigilância constante e podem, a qualquer momento, silenciar quem as utiliza. Para correntes anarquistas, essa contradição está no centro de qualquer discussão sobre tecnologia e luta social hoje.
A história recente oferece exemplos concretos dessa dupla face. Em 2011, protestos no Irã e a onda que ficou conhecida como Primavera Árabe usaram redes sociais para driblar censura estatal e coordenar manifestação de rua em tempo real. No mesmo ano, o movimento 15-M na Espanha, que ocupou praças em protesto contra a austeridade econômica, e o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, que denunciou a concentração de riqueza no setor financeiro, combinaram organização horizontal em assembleias físicas com divulgação digital massiva, inspirando ocupações de praça em diferentes países. Na América Latina, o paro nacional de 2019 no Chile e a onda de protestos na Colômbia em 2021 tiveram nas redes sociais um canal central de convocação e denúncia de violência policial, muitas vezes documentada e disseminada antes mesmo de chegar à imprensa tradicional. Em 2022, os protestos no Irã após a morte de Mahsa Amini se espalharam por meio de redes sociais mesmo sob bloqueio parcial de internet imposto pelo governo.
Esses casos mostram algo importante: rede social amplia alcance e velocidade de organização de um jeito que estruturas tradicionais de militância, sozinhas, dificilmente alcançariam. Segundo essa perspectiva, ignorar essa ferramenta seria abrir mão de um recurso real de mobilização.
Mas há um custo que não pode ser ignorado. As mesmas plataformas que amplificam convocatória também coletam, armazenam e podem repassar dados de quem se organiza nelas. Empresas de tecnologia mantêm parceria comercial e, em muitos países, também parceria formal com governo e aparato de segurança pública. Para correntes anarquistas, isso configura uma dependência estrutural preocupante: o mesmo canal usado para driblar controle institucional pertence a instituições que lucram bilhões operando dentro da lógica que esse mesmo movimento busca contestar.
Diante disso, essa tradição defende alguns princípios gerais de cautela, sem prescrever tática específica de ação. Em 2022, no Brasil, perfis de ativistas e coletivos que organizavam manifestações contra o governo foram suspensos de plataformas sociais sem aviso prévio, com justificativas vagas de violação de termos de uso. O episódio ilustra por que não se pode depender de um único canal centralizado para sustentar organização de longo prazo: perfil e grupo podem ser removidos a qualquer momento. Por isso, a diversificação de canais é recomendada. Para assunto sensível, ferramentas de comunicação com criptografia de ponta a ponta são preferidas. E nenhuma plataforma corporativa deve ser tratada como neutra ou definitivamente segura, porque seu modelo de negócio nem sempre está alinhado com os interesses de quem luta por transformação social.
Segundo essa leitura, a solução não está em recusar por completo a tecnologia, nem em depositar nela confiança ingênua. Está em tratar rede social como ferramenta complementar, não substituta, da organização direta que ocorre fora da tela — em assembleia, em reunião de bairro, no contato presencial que sustenta confiança real entre quem organiza uma luta. A tecnologia amplia o alcance de uma rede que já existe; dificilmente a cria do nada.
Para essa tradição, o desafio permanente é usar essas ferramentas sem se tornar dependente delas, e sem esquecer que, por trás de cada aplicativo gratuito, existe uma empresa que vende atenção e dados a anunciantes, que negocia com governos, que pode, a qualquer momento, apagar a voz de quem a incomoda. O ativista que olha para o celular sabe, em algum nível, que está sendo visto. Mas continua, porque a alternativa não é o silêncio: é encontrar outras formas de ser ouvido, além da tela que um dia se apaga.
