
Desde agosto de 2025, a Selic permanece travada em 15% ao ano. O maior patamar em duas décadas. Em fevereiro de 2026, o Banco Central sinalizou: cortes começam em março. Mercado financeiro celebra. Bancos projetam economia nas prestações. Manchetes anunciam alívio para o consumidor.
Mas quem paga a conta dos juros altos? E quem lucra com eles?
A narrativa oficial é conhecida. Banco Central sobe juros para controlar inflação. Dinheiro mais caro desacelera consumo. Menos demanda contém alta de preços. Quando inflação cede, juros podem cair. Lógica técnica, neutra, inevitável.
Essa história oculta escolhas políticas fundamentais.
Juros a 15% significam que governo brasileiro paga aos detentores de títulos públicos rentabilidade superior a qualquer aplicação do mundo. Em 2025, despesa com juros da dívida pública consumiu mais de R$ 800 bilhões do orçamento federal. Para comparação, educação básica recebeu cerca de R$ 70 bilhões.
Quem recebe esses R$ 800 bilhões? Bancos, fundos de investimento, investidores institucionais, rentistas. Patrimônio concentrado que cresce enquanto maior parte da população enfrenta crédito caro, consumo travado, empregos precários.
A inflação que justificou juros altos não veio de trabalhadores ganhando demais ou consumindo em excesso. Veio de choques de oferta: alimentos encarecidos por clima, combustíveis afetados por guerras, dólar volátil. Elevar juros não resolve nenhum desses problemas. Mas pune quem trabalha e protege quem especula.
Projeções indicam Selic em 12,25% até dezembro de 2026. Queda de 2,75 pontos percentuais celebrada como conquista. Mas 12,25% continua sendo juro real altíssimo comparado a economias similares. Turquia, com crise profunda, tem juros nominais de 45% mas inflação de 65%. Brasil terá juros de 12% com inflação projetada em 4%. Juro real de 8% ao ano.
Esse patamar mantém transferência de renda para rentistas, encarece crédito produtivo, favorece aplicações financeiras sobre investimentos reais. A queda anunciada não muda estrutura. Apenas reduz intensidade da sangria.
O discurso do alívio mascara permanência do problema. Família que financia casa própria pode economizar R$ 690 por mês se Selic cair para 12,25%. Economia real, mas modesta diante de prestações que continuarão acima de R$ 3 mil mensais para financiamento de R$ 300 mil. Casa própria segue privilégio, não direito acessível.
Pequenos negócios dependem de crédito para capital de giro. Juros de 12% ainda inviabilizam muitos empreendimentos. Taxa de falências segue elevada. Emprego formal cresce devagar. Informalidade permanece recorde. A queda prometida da Selic alivia, mas não transforma.
A comparação internacional expõe caráter político dessa dinâmica. Estados Unidos mantêm juros básicos entre 4,5% e 5%. Europa opera em torno de 3,5%. México, vizinho latino-americano, trabalha com 10%. Brasil sustenta juros reais mais altos que qualquer economia relevante.
Justificativa sempre aponta risco-país, déficit fiscal, incertezas políticas. Mas risco-país não é fenômeno natural. É construção política. Governos escolhem pagar juros exorbitantes para atrair capital financeiro. Escolhem privilegiar rentistas sobre investimento produtivo. Escolhem estabilidade monetária nominal sobre pleno emprego.
Outras escolhas existem. Argentina enfrentou situação econômica comparável. Kirchnerismo implementou controles de capital, renegociou dívida, priorizou mercado interno. Resultados foram controversos, mas demonstraram que caminhos alternativos são viáveis. País não desapareceu do mapa. Economia se reestruturou.
Bolívia, sob Evo Morales, manteve inflação controlada com crescimento econômico significativo durante década. Utilizou superávits comerciais para acumular reservas, investiu em infraestrutura e proteção social sem recorrer a juros exorbitantes. Demonstrou que estabilidade econômica não exige sacrificar população no altar do mercado financeiro.
No Brasil, experiências de bancos comunitários e cooperativas de crédito demonstram viabilidade de sistemas financeiros não subordinados à lógica da Selic. Quando comunidades organizam crédito localmente, taxas refletem capacidade de pagamento e necessidade social, não especulação financeira.
O Banco Central não é instituição neutra aplicando ciência econômica objetiva. É instrumento de poder que decide distribuição de recursos entre classes sociais. Quando mantém Selic em 15%, escolhe proteger rentistas. Quando corta para 12%, mantém proteção reduzindo apenas intensidade.
A pergunta não é técnica: qual taxa de juros estabiliza inflação? A pergunta é política: quanto da riqueza socialmente produzida deve ser transferida para quem vive de aplicações financeiras? Quem decide essa transferência? Com base em quais critérios?
Resposta atual favorece concentração. Pequena parcela da população recebe transferência bilionária via juros da dívida enquanto maioria enfrenta crédito caro e renda comprimida. Essa distribuição não é consequência técnica inevitável. É escolha política renovada a cada reunião do Copom.
Alternativas exigem questionar primado do capital financeiro. Exigem defender que recursos públicos sirvam investimento social, não remuneração de rentistas. Exigem construir formas populares de crédito e poupança, reduzindo dependência de sistema bancário privado.
O corte anunciado da Selic traz alívio marginal para milhões. Esse alívio importa. Mas não substitui transformação estrutural. Enquanto juros reais permanecerem altíssimos por padrão internacional, transferência de renda para rentistas continuará.
Entre celebrar migalhas e exigir sistema financeiro a serviço da maioria, não há neutralidade possível.
Na luta seguimos — dignos, livres e indomesticáveis
