Por Akracia – Fenikso Nigra

Existe um número que o governo calcula e um número que as pessoas conhecem. O primeiro é o salário mínimo: hoje, 1.412 reais. O segundo é o que falta no fim do mês. A diferença entre eles não é uma questão de opinião. É matemática. É fome.

O DIEESE — Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos — publica desde 2005 um cálculo alternativo. Não é protesto. É investigação. Levantam quanto custa moradia, alimentação, transportes, higiene e vestiário para uma família de dois adultos e duas crianças. Não inclui lazer. Não inclui poupança. Apenas o que chamam de “mínimo necessário”. O resultado? Em março de 2024, esse mínimo girava em torno de 4.880 reais. Mais que três vezes o valor oficial.

Quando se fala em distância entre números, é fácil perder o que há entre eles. Há ali uma criança que não tem caderno novo. Há ali um adulto que escolhe entre ônibus e refeição. Há ali uma pessoa que dorme em local sem privacidade porque dividir imóvel é o que resta. Essas não são tragédias individuais. São estruturais. Emergem de uma decisão: quanto custa permitir que alguém viva.

O governo não nega a existência desse cálculo paralelo. Apenas o ignora. Nas reuniões que definem reajuste salarial, o DIEESE apresenta dados. Sindicatos levam planilhas. Pessoas chegam com histórias reais de orçamentos que não fecham. Nada muda. A votação acontece em espaço onde quem decide não precisa de salário mínimo. Quem precisa não está na sala.

Essa distância revela como funciona a distribuição de poder em sociedades que dizem ser democráticas. Não é democracia ter voto se as decisões que afetam sua sobrevivência são tomadas longe de você. Não é liberdade pedir permissão para existir com dignidade. O mínimo necessário não é demanda radical. É descrição: isto é quanto custa respirar, dormir e comer em 2024. Em 2025 será mais. Em 2026, ainda mais.

Os efeitos cascateiam. Quem ganha salário mínimo oficial trabalha mais horas em mais empregos. Tempo com filhos desaparece. Tempo de descanso desaparece. Tempo de pensar desaparece. Adoece mais porque estresse é medicina de pobre. Fica imobilizado porque imobilizar é mais barato que manter gente com tempo disponível. Esse é um mecanismo conhecido: transformar sobrevivência em ocupação total.

Alguns argumentam que aumentar salário causa inflação. O DIEESE responde com dados: a inflação veio antes, vem depois e continua enquanto salário fica estagnado. A inflação não é consequência de trabalhador ganhar o que precisa. A inflação é decisão de quem controla preços. Mas a narrativa persiste porque serve. Faz parecer que o problema é matemática, não escolha política. Se fosse matemática, seria inevitável. Como é escolha, pode mudar.

Aqui está o ponto que fica suspenso: se instituições democráticas não conseguem produzir mínimo de dignidade material para quem as sustenta, qual é sua legitimidade? Não é pergunta teórica. Pessoas vivem dela todos os dias. Tentam ser dignas dentro de um sistema que não oferece dignidade. Encontram pequenos modos de existir que o dinheiro insuficiente não consegue destruir. Mas por quanto tempo uma pessoa pode ser livre se não tem tempo seu?

O DIEESE continua a calcular. Sindicatos continuam a apresentar. Governo continua a ignorar. Pessoas continuam a faltar. E a questão não é mais “quanto custa viver”. Tornou-se “quem decide o que custa de nós”.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

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