
Por Akracia – Fenikso Nigra
A energia renovável era para ser o caminho de fuga. Painéis solares brilhando nas favelas. Turbinas de vento alimentando as comunidades. Devolução do controle. Autonomia. Mas chegou o capital e transformou a urgência planetária em oportunidade de ganho. Agora a salvação do planeta passa pelo lucro de empresas que não têm pressa nenhuma em salvar ninguém.
Há uma lógica perfeita nesta armadilha. O planeta queima. Os gases aumentam. As pessoas percebem que algo está muito errado. E o mercado responde com perguntas muito simples: quem vai vender os painéis? Quem vai instalar as turbinas? Quem vai financiar tudo isso? A resposta surgiu antes mesmo que a pergunta terminasse. Grandes corporações. Bancos. Fundos de investimento. Os mesmos que lucram com o petróleo agora lucram com a salvação do petróleo.
O Brasil é exemplo claro disso. As usinas hidrelétricas de Belo Monte e São Luiz do Tapajós não foram pensadas para descentralizar energia. Foram pensadas para concentrá-la. As populações indígenas perderam territórios. Os rios foram mortos. E quem se beneficiou? Empresas de mineração. Construtoras. Distribuidoras de energia que vendem eletricidade ao mesmo preço de antes, talvez mais caro. O dano ambiental continuou. Só mudou o rosto de quem lucra.
Agora repetem a história com energias renováveis. Um fazendeiro no Rio Grande do Sul vende sua terra para um fundo imobiliário europeu que vai instalar parques solares. A energia gerada? Não é para as comunidades locais. É para o mercado internacional. O lucro sai em dólares. A terra não retorna. E o fazendeiro? Recebeu um cheque que suma em alguns anos.
A contradição é estrutural. O sistema que criou a crise climática é o mesmo que tenta resolvê-la. E como ele resolve crises? Do jeito que sabe. Concentrando poder. Transferindo riqueza para cima. Transformando problemas coletivos em oportunidades privadas. A energia renovável poderia ser descentralizada. Poderia estar nas mãos de comunidades. Poderia alimentar quem produz. Mas isso não gera crescimento econômico mensurável. Não cria ações em bolsa. Não enriquece investidores.
Então o capital faz o que sempre faz. Toma o que é público. Transforma em mercadoria. Vende de volta como solução. Enquanto isso, a extração continua. Não de petróleo agora. De lítio. De cobalto. De terras. Os minérios que alimentam as baterias das energias “limpas” saem de minas a céu aberto na Bolívia. Na República Democrática do Congo. Trabalhadores descem a túneis sem segurança. Comunidades perdem água. Florestas desaparecem. E tudo se justifica como necessário para a transição energética.
A transição energética capitalista é uma mentira com números. Reduz emissões de carbono em alguns setores enquanto aumenta a destruição em outros. Desloca o problema. Não o resolve. E faz isso mantendo intacta a estrutura que concentra decisões. Quantas pessoas foram consultadas sobre os parques solares no Nordeste? Quantos votos foram pedidos antes de instalar turbinas eólicas que geram energia para cidades distantes?
O detalhe crucial que ninguém menciona é este: recursos são finitos. Litio tem fim. Água tem fim. Terras férteis têm fim. O planeta não é um caixa eletrônico infinito. Capitalismo não sabe lidar com limites. Sua única resposta é crescimento. Sempre mais. Sempre maiores. E quando o crescimento encontra um planeta finito, o que acontece? Apenas muda a cor do colapso. De preto para verde.
A urgência é real. O planeta está queimando. Mas quem está apressado para agir? Não são as corporações. Elas trabalham em cronograma de lucro. Dez anos. Vinte anos. O tempo que demore para transformar a urgência em cifras. E enquanto isso, as pessoas que causam menos dano são as que sofrem mais consequência.
A pergunta que fica é incômoda: se o sistema que nos levou ao colapso é incapaz de sair dele sem manter seus próprios mecanismos de exploração intactos, então que tipo de transição é essa? Um rearranjo das correntes ou a possibilidade real de outras formas de viver?
Na luta somos pessoas dignas e livres!
