Por Akracia – Fenikso Nigra

Há algo peculiar na forma como o futebol se transformou na vida de pessoas que trabalham dez, doze horas por dia. O trabalhador que sai da fábrica sem conseguir levantar o braço direito senta no sofá no domingo para assistir outro levantar um troféu. O comerciário que passa a semana em pé, na mesma posição, transfere seu desejo de movimento para alguém que corre por ele — literalmente, enquanto ele permanece imóvel.

Essa inversão não acontece por acaso. Ocorre porque foi construída. Os meios de comunicação, as ligas de futebol, as indústrias de bebidas e alimentos processados montaram uma máquina onde assistir se tornou mais acessível que participar. Mais barato em certos termos. Mais seguro. Menos exigente. Um trabalhador que assiste não questiona por que não pode jogar. Apenas consuma o jogo como consome café pela manhã: como parte inevitável do dia.

Quando o esporte deixa de ser prática e vira espetáculo consumido passivamente, ele deixa de fazer aquilo que poderia fazer: manter corpos vivos e presentes. Um corpo que se move aprende coisas. Descobre sua força. Encontra limites e os ultrapassa. Negocia com outros corpos no espaço. Conhece vitória e derrota não como abstração. Experimenta a cooperação real — aquela onde você depende de alguém e alguém depende de você.

Um corpo que apenas assiste absorve diferente. Absorve narrativas de superioridade. Absorve a ideia de que alguns homens são feitos para correr enquanto outros são feitos para ver. Absorve a frustração reempacotada como emoção espetacular. Uma derrota do time se torna sua derrota. Uma vitória de milionários se torna sua vitória. Mas seu corpo continua sentado.

O mercado enxergou isso. Percebeu que pessoas exploradas no trabalho também desejam sentir potência. Em vez de criar condições para que essa potência viesse de si mesmas — de um corpo em movimento, de um grupo jogando junto em uma rua ou parque — ofereceu a ilusão dessa potência através da tela. Ofereceu identificação. Ofereceu tribos com cores de roupa. Ofereceu catarse em pílulas de noventa minutos.

Enquanto isso, estádios se tornaram inacessíveis. Uma partida custa entre cinquenta e seiscentos reais. Um uniforme oficial custa trezentos. A mensalidade de um clube, quando a pessoa consegue encontrar um, custava em média trinta e cinco reais em 2023 — valor desprezível até parecer exigência quando se vive com trezentos reais de sobra por mês. As praças e campos públicos diminuem. Praças viram estacionamento. Campos viram condomínios. O que resta são os pequenos terrenos onde crianças jogam até a polícia dispersar ou alguém comprar a terra.

A exploração do trabalho precisa de uma válvula de escape para o corpo. Precisa que a pessoa cansada não se questione, mas que sinta algo. O esporte assistido oferece exatamente isso: emoção sem mobilização. Fervor sem ação. Pertencimento sem responsabilidade compartilhada.

Há, porém, um detalhe que o sistema não controla completamente. Sempre há uma rua onde pessoas ainda jogam. Um campeonato amador em um bairro periférico onde dezenas de times disputam com camisetas velhas e traves feitas de garrafas. Uma quadra alugada onde trabalhadoras de limpeza jogam vôlei às sextas à noite. Um parque onde idosos praticam capoeira no domingo de manhã. Esses lugares existem apesar de tudo. Existem porque o desejo do corpo de se mover é tenaz. Porque algumas comunidades ainda encontram formas de resistir à passividade.

A pergunta deixada em suspenso é incômoda: se o trabalho nos cansa, se nos rouba tempo e movimento, por que aceitamos um esporte que também nos cansa passivamente? Por que não transformamos a hora que passamos vendo futebol em uma hora onde nós mesmos jogamos, ainda que mal, ainda que cansados?

Na luta somos pessoas que se movem por vontade própria.

O espetáculo da fadiga
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