
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
A cada dois anos, a mesma cena se repete. Microfones, caminhões de som, promessas de emprego, saúde, segurança. Quem está em campanha ajoelha-se para beijar crianças, cumprimenta comerciante, jura que desta vez será diferente. E, a cada dois anos, quem vive do salário, quem enfrenta fila no posto de saúde, quem dorme com medo do despejo, é convencido de que sua maior responsabilidade é escolher bem entre opções já pré-selecionadas por outra pessoa. Segundo a perspectiva que orienta este texto, isso não é participação política: é mecanismo sofisticado de legitimação, no qual o próprio ato de votar funciona como válvula de escape para uma insatisfação que, de outro modo, poderia se organizar de forma bem diferente.
O sistema eleitoral, nessa leitura, não é espaço neutro onde ideias concorrem em igualdade de condição. É tabuleiro montado para que certos resultados sejam possíveis e outros, não. Os partidos, por mais que se critiquem entre si, compartilham a mesma estrutura: disputam cargo, negociam aliança, administram o Estado. Quando algum cresce o suficiente para ameaçar as regras do jogo, a tendência é se adaptar a elas, não rompê-las. O Partido dos Trabalhadores chegou ao governo federal em 2003 com discurso de transformação social; ao longo de treze anos no poder, manteve estrutura tributária regressiva, juros altos, privatizações e alianças com o agronegócio. Não se trata de julgar intenção individual, mas de reconhecer um padrão: quem entra no tabuleiro para administrá-lo acaba administrado por ele.
A alternativa, segundo essa tradição, não é outro partido, outro nome, outra reforma eleitoral. É outra forma de fazer política. Assembleia popular, conselho de bairro, comitê de fábrica, cooperativa de trabalho: espaços onde quem decide é quem sentirá a consequência, sem intermediário falando em nome de outrem. Em Chiapas, no México, comunidades indígenas zapatistas se organizam há cerca de três décadas por assembleias comunitárias, com cargos de representação rotativos, temporários e estritamente mandatados. Não é modelo exportável sem adaptação, mas prova que outra forma de organização política é possível — e duradoura.
A objeção mais comum é que essas experiências são pequenas demais, locais demais, incapazes de substituir o Estado. Para correntes anarquistas, essa objeção confunde escala com lógica. O que importa não é o tamanho da organização, mas a direção do poder: se flui de baixo para cima, com mandato revogável, ou de cima para baixo, com representante decidindo por outros. Em 1936, na Catalunha, uma federação de conselhos operários chegou a coordenar a produção industrial de uma região inteira sem partido único, sem liderança permanente, sem burocracia centralizada. Foi interrompida pela guerra civil — não por incapacidade própria.
O voto nulo, nesse contexto, não resolve nada sozinho: apenas registra ausência de identificação com as opções oferecidas. O que constrói alternativa são as práticas cotidianas de organização direta — educação política feita na rua, não na urna; a experiência concreta de decidir coletivamente sobre o que afeta a própria vida. Quem vive isso deixa de depender da promessa de um representante para resolver seus próprios problemas.
A dificuldade maior, segundo essa perspectiva, não é técnica: é cultural. Décadas sob democracia representativa ensinam que política é coisa de especialista, que quem vota não tem competência para decidir sozinho, que delegar e reclamar depois é mais confortável. Desaprender isso custa paciência e exige encarar a própria acomodação — mas oferece o que o voto nunca oferece: a experiência concreta de que outra organização social é possível aqui e agora, não num futuro prometido por quem quer o próximo voto.
A escolha, nessa leitura, não é entre um nome e outro, nem entre votar e não votar. É entre seguir delegando poder a quem não responde diretamente a quem o delega, ou passar a exercê-lo de forma coletiva. Não é questão de moral individual ou pureza política — é questão de eficácia: o que muda de fato a vida de quem sobrevive de salário atrasado, de bico, de auxílio que nunca chega a tempo? Se décadas de voto não mudaram essa estrutura, talvez seja hora de perguntar se a ferramenta está à altura do problema.
