
A taxa Selic permanece em 15% ao ano desde junho de 2025, o maior patamar em vinte anos. O Banco Central manteve os juros nesse nível por cinco reuniões consecutivas, sinalizando redução apenas para março de 2026. Sob o argumento de combater inflação e ancorar expectativas, as autoridades monetárias mantêm a economia sob regime de crédito caro, investimento travado e endividamento crescente. Enquanto isso, os grandes bancos seguem acumulando lucros bilionários.
Os três maiores bancos privados do Brasil — Itaú Unibanco, Bradesco e Santander — lucraram 87,1 bilhões de reais em 2025, crescimento de 16,4% em relação ao ano anterior. O Itaú sozinho embolsou 46,8 bilhões. Ao mesmo tempo, crescimento econômico previsto para 2026 caiu para 1,6%, taxa de investimento permanece em míseros 16,8% do PIB, e indústria de transformação encolheu 0,2%. Essa não é contradição acidental, mas característica estrutural de um sistema em que bancos prosperam precisamente porque o resto da economia sufoca.
O mecanismo é conhecido. Banco Central eleva Selic para conter inflação. Bancos captam dinheiro barato e emprestam caro, apropriando-se da diferença chamada spread bancário. Em agosto de 2025, spread subiu 2,2 pontos percentuais em doze meses. Juros do cartão de crédito rotativo atingiram 451,5% ao ano. Capital de giro para pequenas empresas chegou a 38% ao ano. Financiamento imobiliário torna moradia inacessível para milhões.
Cada ponto percentual a mais na Selic representa 55 bilhões de reais adicionais em juros da dívida pública, pagos anualmente a detentores de títulos — majoritariamente bancos e fundos financeiros. O próprio Estado se torna grande pagador de juros ao sistema financeiro. Recursos arrecadados da sociedade retornam aos mercados sob forma de rendimentos garantidos, alimentando circuito em que riqueza flui continuamente para o topo.
A narrativa oficial apresenta Banco Central como instituição técnica e neutra, guiada exclusivamente por dados econômicos e modelos matemáticos. Essa ficção esconde escolha política fundamental: priorizar estabilidade financeira e remuneração do capital acima das necessidades sociais. A chamada autonomia do Banco Central, conquistada em 2021, reforça essa lógica ao afastar ainda mais as decisões monetárias do controle popular. A instituição passa a responder prioritariamente aos mercados financeiros, não às condições de vida da população.
Diretores do BC frequentemente vêm do mercado financeiro e para lá retornam após mandatos, criando porta giratória que consolida alinhamento de interesses. Não se trata de conspiração, mas de estrutura institucional desenhada para servir determinada classe social.
Inflação existe e precisa ser controlada. Preços sobem por múltiplas razões: choques internacionais, dependência de commodities, concentração econômica em setores oligopolizados, crises climáticas que afetam alimentos e energia. No entanto, elevar juros não resolve essas causas estruturais. O que a política monetária faz é reduzir demanda através do encarecimento do crédito e do aumento do desemprego. Em outras palavras: o ajuste recai sobre quem vive do trabalho.
Os cinco maiores bancos controlam mais de 80% do crédito no país, operando em oligopólio que elimina concorrência real. Em ambiente concentrado como esse, as taxas cobradas da população permanecem entre as mais altas do mundo, mesmo quando custo de captação diminui. Ausência de competição permite manter spreads abusivos independentemente das condições macroeconômicas.
Empresários produtivos também enfrentam dificuldades. Confederação Nacional da Indústria declarou que Selic em 15% prejudica economia e aprofunda desaceleração. Investimentos despencam porque crédito caro inviabiliza expansão. Indústria encolhe. Comércio estagna. Capital migra da produção para aplicações financeiras que oferecem rentabilidade sem risco, apropriando-se de parcela crescente do excedente social enquanto desindustrializa a economia.
A população paga duplamente. Como tomadora de crédito, enfrenta juros extorsivos que inviabilizam consumo e pequenos negócios. Como contribuinte, financia juros da dívida pública através de impostos que poderiam ser investidos em serviços essenciais. Trabalhadores subsidiam lucros bancários enquanto perdem empregos pela mesma política monetária que enriquece bancos.
Em 2025, gastos com juros da dívida superaram investimentos em saúde, educação e infraestrutura somados. Cada real destinado a rentistas é real não investido em necessidades sociais. O discurso da responsabilidade fiscal exige cortes em programas sociais para pagar dívida que cresce continuamente porque juros são mantidos artificialmente altos.
Mas esperar que o Estado reverta essa lógica é ilusão. A crítica ao sistema financeiro não pode levar a uma defesa ingênua do controle estatal centralizado. Estados historicamente atuaram como garantidores do sistema bancário, socializando prejuízos em crises e protegendo instituições consideradas grandes demais para quebrar. O mesmo Estado que subsidia envenenamento por agrotóxicos, financia operações policiais letais e protege especulação imobiliária não interromperá transferência de riqueza para rentistas por boa vontade.
A verdadeira alternativa surge quando comunidades recuperam controle sobre fluxos de crédito, investimento e circulação de riqueza em seus próprios territórios. Experiências históricas demonstram que intermediação financeira pode servir produção real em vez de especulação. Cooperativas de crédito como Sicredi e Sicoob operam sem finalidade lucrativa, repassando ganhos a associados e financiando atividades produtivas locais com taxas justas.
Experiências ainda mais radicais surgem em territórios populares. Bancos comunitários como Palmas no Ceará e União Sampaio em São Paulo geridos por moradores oferecem microcrédito, fortalecem empreendimentos populares e demonstram viabilidade de finanças solidárias. Moedas sociais circulam em territórios específicos, dinamizando economias comunitárias sem dependência do sistema financeiro convencional.
Essas iniciativas não dependem da benevolência do Estado nem da lógica dos grandes bancos. Surgem da organização direta de pessoas que vivem nos territórios e enfrentam diariamente os limites impostos pelo sistema financeiro tradicional. Não eliminam contradições do capitalismo, mas demonstram que outra organização econômica é possível.
Ações concretas começam no território. Apoiar cooperativas de crédito em vez de bancões retira recursos de circuitos especulativos e os direciona para economia real. Participar de bancos comunitários fortalece finanças solidárias. Organizar fundos rotativos solidários cria autonomia financeira coletiva. Pressionar por auditoria cidadã da dívida pública pode revelar ilegalidades que justifiquem não pagamento de parcelas espúrias.
Cada vez que trabalhadores organizam cooperativas, criam fundos solidários ou fortalecem sistemas comunitários de crédito, parte do poder dos grandes bancos é deslocada. Não se trata de reformar o sistema financeiro dominante, mas de reduzir sua centralidade e construir, na prática, redes econômicas autônomas baseadas em apoio mútuo.
O ano eleitoral de 2026 amplifica importância dessas disputas. Candidatos prometem crescimento e emprego sem questionar autonomia do Banco Central nem estrutura da dívida pública. Oferecem ilusões, não soluções. Transformação real exige enfrentar rentismo que sufoca economia, redistribuir riqueza concentrada em lucros bancários e subordinar finanças às necessidades produtivas e sociais.
Enquanto o sistema bancário continuar determinando condições de acesso ao dinheiro — recurso essencial para qualquer atividade econômica — a sociedade permanecerá subordinada aos interesses de quem controla esse sistema. Não existe solução técnica neutra para estrutura baseada na concentração de riqueza. Juros altos, dívida pública crescente e lucros bancários recordes são expressões diferentes da mesma dinâmica.
Os números expõem a farsa: 87 bilhões de lucro bancário enquanto investimentos despencam, indústria encolhe e trabalhadores se endividam. Não falta dinheiro no Brasil. Falta vontade política para tirá-lo de quem acumula através da especulação e direcioná-lo para quem produz e trabalha. Mas essa vontade não virá de governos comprometidos com capital financeiro. Virá da organização popular que constrói alternativas concretas no chão dos territórios.
A alternativa começa quando esse controle deixa de ser aceito como inevitável — e quando comunidades constroem, na prática, formas de organização econômica que escapam ao domínio simultâneo do capital financeiro e do Estado.
Na luta, recusamos pagar a conta de lucros que não são nossos.
