Por Akracia – Fenikso Nigra

Um ataque aéreo israelense atinge infraestrutura iraniana. O Irã promete resposta. Os EUA reforçam presença militar no Golfo Pérsico. Ninguém no Brasil vota sobre isso. Ninguém em São Paulo, em Fortaleza, em qualquer cidade pequena tem voz nessa cadeia de decisões. Mas os efeitos chegam.

Não é sobre quem tem razão.

A estrutura funciona assim: governos nacionais concentram poder de vida e morte em grupos reduzidos. Esses grupos comunicam-se entre si — ministérios, chefes militares, conselheiros estratégicos — e resolvem questões que afetam bilhões de pessoas sem consultá-las. Assembleias legislativas votam, sim. Mas quem escreve o que será votado? Quem define o que é “segurança nacional”? Sempre os mesmos.

Quando o conflito escala, essa distância se torna absurda. Um soldado iraniano e um soldado americano morrem. Suas famílias choram. Ninguém que ordenou o ataque chora do mesmo jeito. O general que planejou o bombardeio está num escritório seguro. O ministro da Defesa. O presidente. Quanto mais distante geograficamente da explosão, mais seguro você fica na hierarquia que a ordenou.

O mecanismo é simples: primeiro vem a tensão, depois a provocação, depois a resposta, depois a escalada. Cada lado afirma defender-se. Ambos dizem estar a evitar a guerra total. Mas a guerra acontece em doses pequenas. Morte por morte. Ataque por ataque. A lógica não é alcançar paz. É manter o conflito num nível que gera lucro, justifica investimento militar e concentra poder político.

Esse é o ponto: não se busca solução final. Se houvesse, seria preciso pensar no que vem depois. Seria preciso redistribuir poder. Seria preciso escutar pessoas que hoje não são ouvidas. Conflito permanente é mais rentável que paz negociada.

Quem lucra com isso?

Fabricantes de armas nos EUA vendem sistemas de defesa a Israel. Israel usa esses sistemas e pede mais. O Irã compra armamentos de fornecedores secundários e desenvolve tecnologia própria. A Rússia, a China, empresas privadas militares — todos ganham com a instabilidade. O preço do petróleo oscila conforme o medo aumenta. Especuladores ganham em Bolsas de Valores de Nova York, Londres, São Paulo.

Quem perde?

Pessoas em Gaza. Pessoas em cidades iranianas. Pessoas em Israel vivendo sob ameaça constante. Mas também pessoas aqui — em São Paulo, em Manaus, em qualquer cidade brasileira. Um país que importa petróleo vê seu custo subir quando há instabilidade geopolítica. Energia cara. Transporte mais caro. Comida mais cara. A inflação que você sente no supermercado ao buscar arroz, feijão, alimentos básicos tem origem também nesses ataques que você viu em notícias.

A ligação é real. Não é metafórica.

Isso não é conspiracionismo. É funcionamento visível da economia. Guerras beneficiam quem tem capital para especular com elas. Guerras prejudicam quem precisa trabalhar para comer.

A propaganda cada lado (e sim, é propaganda dos dois lados) oferece escolha binária: ou você apoia Israel, ou apoia o Irã. Como se essas fossem as únicas opções. Como se aceitar um desses lados fosse aceitação da morte necessária. Mas existe uma terceira posição. Aquela que diz: nós não aceitamos que qualquer governo decida quem morre em nosso nome.

Isso é incômodo para estruturas de poder. Um pessoa que rejeita ambos os lados não é consumida por polarização. Não vira cliente de narrativas prontas. Não transfere seu pensamento crítico para algum porta-voz político. Pensa por si. Questiona por que aceita a premissa de que “alguma guerra é necessária”.

Nos anos 1960 e 1970, cooperativas de trabalhadores rurais brasileiros criavam alternativas à dependência de mercados controlados por poucos. Eram experiências de decisão coletiva. Não eliminariam imperialismo global, mas mostravam que pessoas podem organizar o que as afeta sem esperar permissão de cima.

Hoje, com conflitos que atravessam continentes, aquela lição persiste: poder descentralizado em decisões que nos tocam. Isso não resolve conflitos geopolíticos de imediato. Mas rejeita a premissa que nos impõe escolher entre A ou B, entre dois modelos de morte já decididos por quem nunca vai morrer.

A pergunta real não é: Israel ou Irã? A pergunta que você deveria fazer é: por que aceito viver numa estrutura onde pessoas que nunca vi decidem quem morre, especialmente longe de mim?

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Quando pessoas comuns decidem quem morre longe delas
Tags: