
Por Akracia – Fenikso Nigra
Setenta e dois por cento das pessoas afirmam sentir incômodo diante da radicalização e da polarização política na sociedade brasileira. Sessenta e sete por cento relatam já ter vivido experiências negativas decorrentes desse cenário: afastamento de familiares e amizades, abandono de redes sociais, medo de expressar opiniões, pressão política em ambientes cotidianos, mudanças de hábitos, episódios de ameaça ou agressão. Cinquenta e sete por cento consideram que a polarização traz mais prejuízos do que benefícios ao país, enquanto cinquenta e oito por cento entendem que ela enfraquece a democracia. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que grande parte da população se identifica com um dos dois polos predominantes do debate político nacional.
A polarização que atravessa o Brasil não surge de forma espontânea nem pode ser compreendida apenas como divergência natural entre projetos de sociedade. Ela é também resultado de disputas políticas conduzidas de maneira a concentrar o debate em identidades partidárias, lideranças personalizadas e conflitos simbólicos, deslocando do centro questões estruturais como propriedade, trabalho, terra, renda e poder.
PT e bolsonarismo se apresentam como antagonismos absolutos, mas, apesar de diferenças relevantes em temas institucionais, costumes, política externa e relação com direitos civis, preservam consensos estruturais fundamentais: ambos operam dentro da lógica da propriedade privada, da centralidade do Estado, da mediação institucional obrigatória e da manutenção do trabalho subordinado como eixo da vida econômica. A disputa principal não incide sobre a superação dessas estruturas, mas sobre sua administração.
Diversos estudos apontam que a polarização brasileira é fortemente afetiva: menos baseada em diferenças programáticas profundas e mais organizada por identidade de grupo, pertencimento emocional e rejeição ao adversário. O outro deixa de ser apenas alguém com posição política distinta e passa a representar ameaça moral ou existencial. Nesse cenário, o debate público se empobrece, porque vencer o adversário passa a importar mais do que discutir transformações concretas.
Essa polarização afetiva favorece a reprodução da ordem existente. Enquanto trabalhadores se hostilizam por símbolos partidários, cores ou narrativas de guerra cultural, questões centrais permanecem em segundo plano: quem se beneficia de juros elevados, da financeirização da economia, da precarização do trabalho, da concentração fundiária e da mercantilização da vida? A energia social é canalizada para disputas que pouco alteram as bases materiais da desigualdade.
Pesquisas recentes indicam que os grupos mais radicalizados representam parcela minoritária do eleitorado, embora dominem visibilidade pública e redes sociais. A maior parte da população expressa preocupações concretas: custo de vida, violência, emprego, moradia, transporte e acesso a serviços públicos. Ainda assim, essas demandas frequentemente são absorvidas pela lógica binária que reduz a política à escolha entre dois campos apresentados como únicos possíveis.
Os consensos estruturais entre os polos aparecem de forma recorrente. Ambos preservam a centralidade do capital privado na organização econômica. Ambos convivem com mecanismos de transferência de renda ao setor financeiro. Ambos mantêm forte dependência do agronegócio exportador. Ambos governam sem alterar de forma substantiva a estrutura fundiária. Ambos recorrem ao aparato policial militarizado como forma principal de gestão dos conflitos sociais. Mesmo quando diferem em linguagem ou intensidade, preservam instituições cuja função histórica é garantir ordem e propriedade.
A polícia continua matando cotidianamente, sobretudo pessoas negras e pobres. O sistema prisional permanece ampliando encarceramento sem enfrentar causas sociais da violência. A terra segue concentrada enquanto milhões vivem sem acesso digno à moradia ou à produção agrícola. Essas continuidades revelam que a disputa institucional, embora relevante em certos aspectos, não rompe com a arquitetura central do poder.
Historicamente, polarizações semelhantes serviram para limitar alternativas autônomas. Durante a Guerra Fria, a oposição entre capitalismo liberal e socialismo de Estado frequentemente sufocou experiências libertárias que recusavam tanto a exploração capitalista quanto a burocracia autoritária. Em diferentes contextos, forças opostas entre si convergiram na repressão a iniciativas populares independentes quando estas ameaçavam escapar ao controle institucional.
No Brasil, experiências de organização popular demonstram que outras formas de ação política são possíveis. Ocupações urbanas reúnem pessoas de origens políticas diversas em torno da necessidade concreta de moradia. Cooperativas organizam produção e renda sem depender da lógica empresarial tradicional. Redes de economia solidária constroem circuitos de troca baseados em reciprocidade. Comunidades indígenas, quilombolas e experiências territoriais autônomas preservam práticas coletivas de decisão e cuidado fora da lógica centralizada do Estado.
Essas experiências mostram que a política não precisa se limitar à representação institucional nem à delegação periódica de poder. Há capacidade concreta de auto-organização social, construção de autonomia e produção coletiva de soluções.
A manutenção permanente da polarização também responde ao interesse dos próprios polos. O PT necessita de um inimigo permanente para justificar alianças contraditórias, moderação programática e permanência institucional. O bolsonarismo necessita de um adversário constante para sustentar mobilização identitária, ressentimento social e retórica de ameaça permanente. Ambos se alimentam reciprocamente porque sua força depende da continuidade do conflito.
Isso não significa afirmar equivalência absoluta entre os dois campos, mas reconhecer que a lógica que os sustenta depende da reprodução de antagonismos administráveis dentro dos limites do sistema.
Sair da polarização não significa buscar um centro político neutro nem uma terceira via eleitoral com nova embalagem. Significa questionar a própria lógica que transforma delegação em única forma legítima de ação política. Trabalhadores têm interesses materiais comuns independentemente do voto. Moradores de periferia enfrentam problemas semelhantes independentemente de identidade partidária. Camponeses seguem necessitando de terra, autonomia e proteção contra a concentração econômica.
A construção de alternativas passa por práticas concretas: organização nos locais de trabalho, ocupação coletiva de espaços ociosos, fortalecimento de redes de apoio mútuo, produção cooperativa, mediação comunitária de conflitos, defesa territorial e criação de formas diretas de decisão coletiva.
Cada experiência de autonomia reduz dependência de líderes, partidos e salvadores políticos.
Transformações profundas dificilmente virão apenas da alternância entre gestores do mesmo arranjo estrutural. Enquanto a política permanecer limitada à escolha entre administradores da desigualdade, a desigualdade seguirá se reproduzindo.
A polarização funciona como cortina de fumaça porque desloca o olhar das estruturas permanentes: propriedade concentrada, hierarquia política, exploração do trabalho e monopólio institucional da decisão.
Recusar essa falsa guerra não significa neutralidade. Significa escolher outro terreno de luta: aquele em que a transformação nasce da organização direta de quem vive os problemas e decide enfrentá-los sem tutela.
Na luta, recusamos escolher entre dois que administram o que precisa ser superado.
