Por Akracia – Fenikso Nigra

Um gerente de logística passa oito horas movimentando cargas. Recebe R$ 1.800 por mês. A empresa onde trabalha faturou 47 milhões em 2023. Ele produz mais valor do que recebe. Essa diferença tem um nome: lucro. O lucro vai para alguém que não está lá às cinco da manhã conferindo pesos e medidas.

Este padrão não é exceção. É a base de como funciona o trabalho contemporâneo. Uma empregada doméstica trabalha 44 horas por semana. Recebe em torno de R$ 1.500. A família que a contrata poupa exatamente aquelas horas — horas que valem dinheiro. Quanto? Ninguém calcula. O valor da sua poupança nunca aparece em um contracheque.

Um garçom em São Paulo trabalha dez horas diárias. Fica em pé. Suporta cliente impaciente. Ganha R$ 1.200 de base mais R$ 300 em gorjeta. O proprietário do restaurante paga R$ 1.200. Vende cada prato por R$ 45. Vende em média 120 pratos por noite. Faturamento da noite: R$ 5.400. O garçom recebeu R$ 1.500. Para onde foi R$ 3.900? Para o proprietário. Para o fornecedor. Para impostos. Principalmente para o proprietário. Quem estava ali vendendo o trabalho todo era o garçom. Quem recebeu a maior parte foi quem possuía o lugar.

O século XXI multiplicou essa estrutura. Tornou-a invisível. Profissionaliza-a. Um algoritmo decide quantos pedidos um entregador consegue fazer. Quanto ele ganha? Um percentual sobre cada entrega. A plataforma — que não pedala, não carrega, não expõe o corpo — fica com a maior parte. O código não se cansa. A pessoa sim.

Isso não é preguiça de patrões. É engenharia. Sistemas funcionam porque estão desenhados para funcionar dessa forma. Um trabalhador braçal nos anos 1960 podia ver seu patrão. Podia identificá-lo como indivíduo. Hoje a relação é mediada. Uma empresa de consultoria faturam bilhões enquanto seus consultores recebem salários de classe média. Quem fica com os bilhões? Acionistas. Pessoas que nunca estiveram em uma sala de reuniões com cliente. Algumas delas herdam a fortuna. Nunca produziram nada.

O Brasil concentra riqueza em velocidade recorde. Os 1% mais ricos ganham em um dia o que um trabalhador ganha em um ano. Não por acaso. Porque o sistema foi construído para isso. As leis de propriedade. Os contratos. Os bancos. Tudo funciona como uma máquina de transferência de valor — do trabalho para o capital.

A pergunta incômoda não é “por que ganho pouco”. É “para onde vai o que produzo”. Uma confeitaria produz bolos. O confeiteiro trabalha. A proprietária vende. Ela fica com 70% do preço. O confeiteiro recebe um salário fixo. Se vende cem bolos em um dia e trinta no outro, ele ganha igual. A proprietária não. Ela ganha conforme a venda. Ela se beneficia de suas flutuações. Ele não. Ela transfere o risco para ele — se não vender, ela reduz salário ou dispensa.

Essa estrutura se repete em toda parte. Motoristas de ônibus não são donos dos ônibus. Mineiros não possuem as minas. Programadores escrevem código que a empresa vende e fica com 90% do valor. Ninguém chama isso de roubo porque está dentro da lei. A lei permite. A lei foi escrita para permitir.

O século XXI não resolveu isso. Piorou. Adicionou complexidade. Um trabalhador de fábrica nos anos 1970 sabia exatamente quem o explorava. Hoje é mais fácil não saber. A cadeia é longa. A responsabilidade é difusa. Um aplicativo conecta você a milhões de usuários. Você ganha centavos por transação. Bilionários aparecem do nada. Nunca digitaram uma linha de código. Possuíram a plataforma.

Isso não é destino. Não é lei da natureza. É escolha de desenho. Quilombos funcionaram diferente. Comunidades indígenas funcionam diferente. Cooperativas de trabalho no Brasil funcionam diferente. Em Mondragón, na Espanha, 80 mil pessoas trabalham em cooperativas desde 1956. Os salários máximos são dez vezes maiores que os mínimos — não cem ou mil vezes como nas corporações. Decisões são votadas em assembleia. Lucros são distribuídos. São mais raras. Menos rentáveis para bilionários. Mas funcionam. Pessoas recebem conforme produzem. Decisões são coletivas.

O trabalho existe. Continuará existindo. O solo precisa ser cultivado. Casas precisam ser construídas. Pessoas precisam de comida. A pergunta é simples: para quem o trabalho serve? Hoje serve para concentração de riqueza. Poderia servir para vida digna. Podia servir para comunidade. Podia servir para autonomia. A escolha não é pessoal. É estrutural. Está embutida nas leis. Nos contratos. Nas instituições.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

O Trabalho Que Não Pertence a Quem Trabalha