Por Akracia – Fenikso Nigra

Uma empresa gaúcha vende soja para a China. Os lucros ficam com quem já tinha. Em Roraima, famílias vivem com menos de 200 reais mensais. A distância não é apenas geográfica. É deliberada.

A desigualdade regional na América do Sul não é acidente de história. É resultado de escolhas políticas reiteradas. Escolhas sobre quem recebe crédito. Sobre quais cidades merecem infraestrutura. Sobre onde as universidades federais abrem portas. Sobre quem tem direito a mercados.

Tome como ponto de partida um mapa: o PIB por habitante. No Brasil, o Sul e Sudeste concentram 65% da riqueza nacional. Não porque tenham melhor clima ou população mais trabalhadora. Porque recebem investimento. Porque as decisões sobre desenvolvimento são tomadas em salas de São Paulo e Rio de Janeiro. As consequências são sentidas em Marajó, no Tocantins, na Bolívia rural.

A política de desenvolvimento regional opera assim. Um ministério em Brasília define prioridades. Escolhe quais regiões crescem. Quais setores recebem subsídio. Qual infraestrutura é construída. Quem participa dessa escolha? Não as pessoas que vivem nas regiões esquecidas. Participam bancos. Grandes proprietários de terra. Empresas de mineração. Gente que mora longe de quem será afetado.

O resultado é visível. As capitais do Sul têm metrô, universidades públicas, polos tecnológicos. Cidades de médio porte do Norte compartilham três escolas federais para população de 500 mil pessoas. Uma estrada importante leva soja para portos de exportação. A mesma estrada não leva crianças para hospitais. Não porque seja impossível. Porque quem decide não foi perguntado pelos afetados.

A Colômbia concentra suas universidades em Bogotá e região cafeeira. O Peru suga ouro de territórios indígenas para enriquecer Lima. A Argentina historicamente priorizou Buenos Aires. Padrão comum: poder administrativo e econômico se sobrepõem. Coincidem com centros urbanos antigos. Reproduzem hierarquias coloniais. O interior fornece matéria-prima. O litoral e as capitais absorvem valor agregado.

Programas de “desenvolvimento regional” existem. Têm nome. Orçamento. Metas. Funcionam como redistribuição simbólica. Alguns recursos chegam à periferia. Sempre insuficientes. Sempre condicionados. Sempre decididos por quem não mora lá. Uma cooperativa de agricultores familiares quer crédito para melhorar produção. Precisa atender critérios desenhados em Brasília por gente que nunca pisou em uma pequena propriedade. Resultado: crédito não chega ou chega com juros que inviabilizam o projeto.

A tecnologia aprofunda o padrão. Startup recebe investimento de capital de risco. Fica em São Paulo ou Buenos Aires. Contrata talentos de capitais. Expande para interior como fornecedor de dados ou consumidor de serviço. O Norte e Nordeste do Brasil recebem fábricas de processamento, não sedes de empresas. Criam empregos precários. Não criam poder de decisão.

Há uma ilusão difundida. A de que desenvolvimentos será “alcançado” pelas regiões pobres. Como se o pobre precisasse apenas correr mais rápido. Como se a questão fosse velocidade e não direção. Ignora fato simples: a estrutura que concentra riqueza no Sul brasileiro é a mesma que a concentra nas mãos de grandes proprietários. É a mesma que tira terra de indígenas. É a mesma que paga pouco a quem produz e muito a quem especula.

O que muda quando regiões ganham voz nas decisões sobre seu próprio desenvolvimento? Surgem prioridades diferentes. Universidades em cidades pequenas. Estradas conectando comunidades. Crédito com juros que pessoas podem pagar. Tecnologia apropriada para contexto local. Isso aconteceu. Acontece. Em cooperativas de produção. Em bancos comunitários. Em experiências de desenvolvimento participativo. Nunca é perfeito. Sempre é mais próximo do que necessários são.

A questão não é esperar que o poder central redistribua equidade. Nunca fez isso espontaneamente. A questão é: quem pode começar a tomar decisões sobre o próprio desenvolvimento agora? Sem aguardar decreto. Sem depender de ministério. Quem pode se organizar localmente? Quem pode rejeitar a política de quem governa de longe?

Na luta somos pessoas dignas e livres.

O Norte produz, o Sul decide