Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Feminicídio não é crime passional.
Não é tragédia.
Não é o desfecho inevitável de um relacionamento que “deu errado”.

É execução.

É o ponto final de uma lógica que trata o corpo das mulheres como propriedade — e pune com a morte quem ousa escapar dessa condição.

No Brasil, uma mulher é assassinada aproximadamente a cada seis horas. Na maioria dos casos, ela conhecia o agressor. Na maioria dos casos, já havia procurado ajuda. Na maioria dos casos, deixou sinais — sinais que o sistema viu e ignorou.

Não porque faltam leis.

Porque falta — e continua faltando — vontade estrutural de interromper aquilo que a própria estrutura sustenta.

A palavra feminicídio foi cunhada pela pesquisadora Diana Russell na década de 1970 para nomear o que já existia sem nome: o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres. Mais tarde, o conceito foi aprofundado na América Latina por Marcela Lagarde, que enfatizou a responsabilidade do Estado na produção e na tolerância dessa violência.

Nomear foi um ato político.

Dar nome revelou que esses assassinatos não eram episódios isolados de violência doméstica, mas a expressão sistemática de uma ordem social que hierarquiza vidas. Antes do nome, havia apenas o “crime passional” — uma categoria que explicava o assassino e apagava a vítima.

A história de Ciudad Juárez tornou esse padrão impossível de ignorar.

Desde os anos 1990, centenas de mulheres — jovens, trabalhadoras, muitas operárias das maquiladoras — desapareceram e foram encontradas mortas com marcas de tortura e violência sexual. Durante anos, o Estado mexicano atrasou investigações, minimizou denúncias e culpou as próprias vítimas.

Foram as mães.

As irmãs.

As companheiras.

Foram elas que mapearam os desaparecimentos, pressionaram instituições, denunciaram a negligência estatal e transformaram o escândalo em um caso internacional.

A resposta oficial, quando veio, foi tardia, seletiva e insuficiente.

A violência continuou.

Juárez não foi exceção.

Foi espelho.

No Brasil, o assassinato de mulheres negras ocorre em frequência significativamente maior que o de mulheres brancas — e recebe, de forma igualmente sistemática, menos atenção, menos investigação e menos comoção pública.

A hierarquia de quais mortes importam não está apenas nos corações individuais. Ela está na distribuição de recursos do Estado, na cobertura da mídia, na prioridade das investigações policiais e na temperatura do debate político.

O feminicídio opera sobre corpos marcados por raça, classe e território.

E o Estado opera segundo as mesmas marcações.

Diante disso, correntes libertárias e feministas — entre elas a tradição anarquista — recusam duas saídas fáceis: o punitivismo que promete resolver tudo com penas maiores e o fatalismo que trata a violência como inevitável.

Penas mais duras não protegem mulheres.

Protegem a narrativa de que o Estado está fazendo alguma coisa.

A proteção real começa muito antes do disparo, muito antes da faca, muito antes do último episódio de violência que vira estatística.

Ela começa quando existem condições concretas para sair.

Autonomia econômica para quem depende financeiramente do agressor.

Moradia para quem não tem para onde fugir.

Redes comunitárias capazes de intervir antes que a violência escale.

Espaços de escuta que funcionem antes da crise — e não apenas depois do crime.

A transformação real não nasce da ampliação do aparato punitivo. Nasce da capacidade coletiva de construir estruturas de cuidado, solidariedade e proteção que não dependam da indiferença estatal para existir.

Isso exige também recusar os eufemismos que naturalizam a violência.

Não foi “briga de casal”.

Não foi “crime passional”.

Não foi “tragédia”.

Feminicídio é assassinato político: praticado por indivíduos, produzido por uma ordem patriarcal e tolerado por instituições que escolhem, todos os dias, quais vidas merecem ser protegidas.

Enquanto essa escolha estrutural não mudar, os números não cairão.

E a mudança não virá apenas de tribunais, delegacias ou sentenças.

Ela virá quando comunidades inteiras decidirem, na prática, que nenhuma mulher será deixada sozinha diante da violência.

Porque a vida das mulheres não é descartável.

E nenhuma será esquecida.

Na luta, cada vida importa.

O feminicídio que o sistema autoriza
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