Por Akracia – Fenikso Nigra

Em 2023, um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que homens jovens figuravam entre os grupos mais atingidos pelo desemprego de longa duração no Brasil. O dado não deve ser lido como acidente estatístico. Ele revela um sintoma social. A masculinidade tradicional promete autonomia, força e controle; no entanto, frequentemente produz isolamento, frustração e silêncio. Onde permanece essa força quando o corpo não encontra trabalho? Quando a palavra não encontra escuta?

A chamada machosfera cresce em grupos digitais e redes fechadas de aconselhamento masculino. Ali, recomendações aparecem como mandamentos: o homem deve ser autossuficiente, competitivo, impenetrável. Deve dominar antes de ser dominado. Deve calar antes de demonstrar vulnerabilidade. O silêncio converte-se em virtude; a dor, em fraqueza; o medo, em falha moral. Mas quem lucra quando os homens desaprendem a nomear o próprio sofrimento? Quem se beneficia quando a sensibilidade é tratada como desvio?

O patriarcado não opera apenas como um código moral herdado. Ele funciona como uma tecnologia cotidiana de distribuição de poder. Determina quem fala, quem decide, quem pode ser reconhecido. Age nas instituições e nos hábitos: o chefe define o salário, o juiz interpreta o direito, o padre e o pastor organiza a culpa. Ao homem comum, muitas vezes resta uma parcela limitada de autoridade e uma larga experiência de obediência. A promessa de mando convive, paradoxalmente, com a experiência concreta de subordinação.

Os dados de violência tornam esse paradoxo ainda mais visível. Estudos reunidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram que homens seguem sendo maioria entre as vítimas de homicídio no país, sobretudo jovens negros das periferias. O mesmo sistema que exige dureza entrega corpos masculinos à exposição permanente ao risco e à morte. Nesse sentido, a masculinidade tóxica não é apenas uma linguagem social: ela se materializa em trajetórias interrompidas, encarceramento, exaustão e perda.

A machosfera oferece respostas rápidas para esse mal-estar: culpa-se a mulher, culpa-se o feminismo, culpa-se sempre um outro próximo. Mas respostas simples raramente explicam problemas estruturais. Não explicam por que tantos homens perdem vínculos, trabalho e horizonte. Não explicam por que a precariedade se amplia justamente onde a promessa de sucesso individual se torna mais agressiva. O conflito não nasce apenas ao lado; ele também é produzido acima, nas formas de organização econômica e social que distribuem insegurança.

A masculinidade tradicional, nesse contexto, funciona como armadilha ambígua. Promete poder, mas frequentemente entrega conformidade. Ensina-se o homem a exercer controle nos espaços íntimos enquanto permanece submetido em estruturas mais amplas que não controla. Aprende-se a endurecer para suportar, e esse endurecimento muitas vezes impede perceber a própria exploração.

Por isso, talvez a crise não seja exatamente da masculinidade, mas do modelo histórico que a organiza. Um modelo que exige invulnerabilidade, desempenho contínuo e obediência disfarçada de mérito. Um homem que não falha, não hesita, não recua, não pede ajuda. Mas todo modelo construído sobre negação da fragilidade produz inevitavelmente fratura. E, quando essa fratura aparece, muitos experimentam a angústia sem reconhecer a forma política de sua origem.

A masculinidade não é essência natural. É aprendizagem social. Repete-se em casa, na escola, nas igrejas, na mídia, no trabalho. Repete-se até parecer inevitável. O hábito transforma-se em identidade; a identidade, em disciplina; a disciplina, muitas vezes, em sofrimento silencioso.

O que ocorre quando um homem começa a duvidar desse roteiro? Quando percebe que não é invencível, que está cansado, que precisa de cuidado? Em muitos espaços, essa dúvida ainda é recebida como ameaça: a machosfera a chama de fraqueza; o patriarcado a trata como deserção; a ordem social a identifica como desvio.

Mas é precisamente na dúvida que começa a liberdade. Perguntar interrompe automatismos. Duvidar rompe fidelidades herdadas. Um homem que interroga o modelo pode escutar, pode se reorganizar, pode construir alianças fora da lógica da rivalidade.

A masculinidade, portanto, não precisa ser abolida como experiência humana, mas reinventada como prática não hierárquica. Sem violência como linguagem principal. Sem silêncio como prova de valor. Sem dureza obrigatória como condição de pertencimento. Um horizonte em que sentir não diminua ninguém; em que errar não seja vergonha; em que pedir ajuda não seja derrota.

Talvez a verdadeira crise não seja do homem em si, mas do sistema que o reduz a uma versão estreita de humanidade. Que força existe em alguém impedido de ser inteiro? Quem ganha quando homens permanecem calados? Quem continua decidindo, afinal, o que deve significar ser homem?

Na luta, seguimos pessoas dignas e livres.

A masculinidade está em crise?
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