
Por SoRo – Fenikso Nigra
Por que a saída não virá de cima, nem do colapso do capital
Toda crise do capitalismo vem com o mesmo roteiro. A mídia especula sobre as proporções do desastre, os patrões anunciam “sacrifícios necessários”, e a conta chega, como sempre, a quem menos tem. Não é por maldade pessoal. O capital vive de crescer, e quem deixa de crescer é engolido pela concorrência. Por isso a redução dos lucros é tratada como pecado, e a redução dos direitos, como prudência. Cortam-se salários, demitem-se pessoas que dedicaram uma vida inteira à empresa, aperta-se o ritmo de quem fica. Há dinheiro para preservar empregos e o mínimo de dignidade de quem produz a riqueza. Falta disposição para abrir mão de uma parte dele.
Há quem anuncie, a cada crise, o fim do capitalismo, como se ele fosse ruir sozinho. Não ruirá. A história mostra o contrário: ele atravessa as crises, descarta o que não lhe serve e volta renovado. O preço é conhecido: demissões em massa, falência de pequenos comércios e indústrias, concentração ainda maior da riqueza em poucas mãos. O capital que retorna é mais poderoso, mais selvagem e mais cruel, à custa da fome, da miséria e da destruição do meio ambiente. Esperar o colapso é uma forma de passividade. E a passividade é exatamente o que mantém o sistema de pé.
Enquanto isso, onde estão as grandes centrais sindicais? Em muitos casos, sentadas à mesa com os patrões, a portas fechadas, discutindo a redução de direitos e as demissões. Não é acidente. Quem vive do imposto sindical e da proximidade com o poder tem o que perder com o conflito, e por isso aprende a administrá-lo em vez de enfrentá-lo. Convém ser justo: nas bases e nos sindicatos filiados há quem resista e faça oposição interna. Isso só reforça o ponto. Quando a defesa dos trabalhadores depende de cúpulas que lucram com a estabilidade, ela está sempre à venda.
Quando a crise se alargar e as pessoas começarem a perguntar que caminho seguir, é preciso que os trabalhadores já tenham uma resposta própria, e não emprestada. Uma proposta de sociedade livre, justa e igualitária, construída fora da lógica do capital. A quem relegar essa tarefa? Às mesmas organizações que correm aos patrões assim que a crise se anuncia? Ao partido que promete falar em nosso nome? A resposta anarquista é simples e exigente: a ninguém. O destino de nossas vidas não se entrega a quem quer que seja. Cabe a cada pessoa e a todas coletivamente, em associação livre, horizontal e sem partido.
E não se trata de esperar a crise para começar. A organização começa agora, pequena e teimosa. Um grupo de trabalhadores que se reúne depois do expediente para discutir o que a chefia esconde. Uma cozinha comunitária que garante o prato de comida de quem entrar em greve. Um fundo de apoio mútuo, alimentado por quem pode, para socorrer quem for demitido. Um espaço aberto para desempregados, informais e terceirizados, que nenhum sindicato oficial costuma representar. E, sobretudo, memória: registrar as lutas que deram certo e as que fracassaram, para não recomeçar do zero a cada crise. Nada disso derruba o capitalismo em um dia. Mas é assim que se cria, antes da crise seguinte, a força que hoje falta: a de quem já aprendeu a decidir junto e a sustentar uns aos outros.
A crise é deles. A resposta, se vier, será nossa, ou não virá.
