
Chega outubro e o palco se arma. As luzes se acendem, a cortina se abre e os atores entram em cena com a precisão de quem ensaiou o mesmo roteiro há décadas. A política, nesses dias, deixa de ser qualquer coisa que se pareça com a administração da vida coletiva para se tornar pura encenação. Os candidatos sorriem para as câmeras, apertam mãos, beijam crianças, visitam feiras e prometem mundos e fundos com a naturalidade de quem sabe que nunca será cobrado. O eleitor, sentado na plateia, aplaude ou vaia, acredita ou desacredita, mas raramente percebe que está assistindo a uma peça cujo desfecho já foi combinado nos bastidores.
O que caracteriza o espetáculo não é a mentira em si, mas a profissionalização da aparência. Os consultores de imagem escolhem a cor da gravata de acordo com a pesquisa de mercado. Os discursos são testados em grupos focais para garantir que não ofendam ninguém importante. As promessas são calibradas para soar ambiciosas o suficiente para emocionar, mas vagas o suficiente para nunca serem cumpridas. Até a indignação é ensaiada: quando um candidato ataca “o sistema”, não é raro que essa crítica tenha sido moldada para não tocar nos interesses de quem financia a própria campanha — a transgressão é permitida até o ponto exato em que deixaria de ser lucrativa. A revolta, assim, vira produto. A indignação vira merchandising. E a população, consumindo tudo isso pela televisão ou pelo celular, confunde a emoção do espetáculo com a participação política real.
Mas o teatro tem um problema estrutural que nenhuma maquiagem consegue esconder: ele não muda a vida de quem assiste. A criança beijada na campanha continua sem escola decentemente equipada no dia seguinte. O trabalhador que apertou a mão do candidato continua acordando às cinco da manhã para pegar três conduções. A comunidade visitada com câmeras continua sem água encanada quando as equipes de filmagem vão embora. O espetáculo consome toda a energia que deveria ir para a transformação material das condições de vida e a converte em audiência, em engajamento digital, em ibope. A política se torna entretenimento, e o entretenimento, por definição, não altera a estrutura do mundo. Apenas a torna mais suportável por algumas horas.
As vertentes anarquistas têm pouca paciência com esse teatro. Não porque desprezem a comunicação ou a capacidade de mobilizar emoções, mas porque desconfiam — na esteira de uma crítica que atravessa também outras tradições de esquerda — de que a emoção sem ação funciona como um narcótico social. O espetáculo eleitoral opera como válvula de escape: canaliza a raiva, a esperança e o desejo de mudança para dentro de um circuito onde essas energias são neutralizadas. Quem vota se sente participante, se sente ouvido, se sente parte de algo maior. Mas o que acontece, na leitura anarquista, é que sua energia foi capturada, processada e devolvida como ilusão. A participação no espetáculo seria, assim, a própria forma de exclusão da participação real.
Vale reconhecer que essa não é uma conclusão unânime dentro do próprio campo libertário. Outras vertentes anarquistas e afins defendem posições distintas — voto crítico, construção paralela de conselhos populares, abstenção seletiva conforme o contexto — e há quem argumente que a abstenção em massa, na prática, tende a favorecer quem já detém vantagem eleitoral, e não necessariamente enfraquece o teatro que se pretende recusar. O texto que segue assume um lado desse debate; vale ao leitor saber que ele existe.
Recusar o voto, nesse contexto, é recusar o ingresso para o teatro. É dizer que não se aceita mais ser plateia de uma peça onde os atores mudam, mas o roteiro permanece o mesmo. É reconhecer que a transformação não virá de quem domina a arte da encenação, mas de quem, longe dos holofotes, constrói outras formas de organizar a vida. Anular o voto não é sair do teatro para o vazio. É sair do teatro para a rua, para a fábrica, para o terreno, para o lugar onde a política deixa de ser espetáculo e passa a ser a prática cotidiana de quem luta para viver com dignidade.
