Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Dizer que outro mundo é possível soa, muitas vezes, como devaneio. Mas basta olhar com atenção para o que já acontece nos interstícios do sistema para perceber que outro mundo não é apenas possível: já está sendo construído, aos poucos, longe dos holofotes do parlamento. Não se trata de esperar uma revolução messiânica que derrubará tudo de uma só vez. Trata-se de reconhecer, no aqui e no agora, práticas de organização coletiva que funcionam sem Estado, sem patrões, sem a mediação de quem se autoelegeu para mandar. A autogestão não é projeto de futuro distante. É a realidade de quem, todos os dias, resolve seus problemas junto com os outros.

Nas cidades, as ocupações de terra e de prédios abandonados são escolas práticas de autogestão. Quem ocupa não espera que o governo resolva a moradia: organiza a cozinha coletiva, divide as tarefas de limpeza, cria comissões para cuidar das crianças, resolve os conflitos internos em assembleia. Não há dono, não há inquilino, não há administrador distante cobrando aluguel. Há pessoas que decidem juntas como viver no mesmo espaço. Claro que a repressão do Estado aparece, cedo ou tarde, com seus despejos e suas ameaças. Mas a ocupação, enquanto dura, demonstra que é possível organizar a vida sem a propriedade privada e sem a burocracia estatal. E mesmo depois do despejo, a experiência de ter vivido assim deixa marcas que nenhuma polícia consegue apagar.

No campo, as cooperativas de trabalho e as comunidades tradicionais mantêm formas de organização que precedem o Estado moderno. Quem planta coletivamente, quem divide a colheita segundo necessidades e não segundo lucro, quem decide em roda sobre o destino do território, está praticando uma economia que não precisa de banco, não precisa de mercado especulativo, não precisa de ministro da agricultura. A terra não é mercadoria: é vida, é sustento, é memória. E a defesa dessa terra contra o agronegócio, contra o garimpo, contra as grandes obras de infraestrutura, é ao mesmo tempo luta por sobrevivência e afirmação de outra forma de organizar a existência.

Nos locais de trabalho, as fábricas recuperadas pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras mostram que a produção não precisa de dono para funcionar. Quem opera as máquinas sabe mais sobre elas do que quem as comprou como investimento. Quem vive o chão de fábrica sabe onde estão os gargalos, onde é possível economizar, onde é preciso investir. Sem a figura do patrão sugando lucro, sobra mais para quem produz. Sem a pressão da competição desleal, sobra espaço para cuidar da qualidade, para respeitar o ritmo humano, para pensar no impacto ambiental. Não é utopia: são experiências concretas, muitas vezes precárias, muitas vezes sob ataque, mas que persistem e se multiplicam.

As vertentes anarquistas têm olhado para essas práticas não como curiosidades marginais, mas como o núcleo de outra forma de fazer política. Não a política dos discursos televisivos, mas a política do cuidado cotidiano. Não a política das promessas de campanha, mas a política da mão na massa, da decisão coletiva, da responsabilidade mútua. O voto nulo, nesse panorama, é apenas um gesto entre muitos. É a recusa ao sistema que não funciona, abrindo espaço para o sistema que já funciona nos porões, nas periferias, nos territórios esquecidos. Anular o voto não é desistir: é reconhecer que a solução não virá de cima, porque a solução já está sendo construída embaixo.

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