
A cada ciclo eleitoral, as ruas se enchem de bandeiras, carros de som e promessas de transformação. Candidatos de todos os matizes juram que, desta vez, a mudança será real. E, a cada ciclo, a estrutura permanece intacta. A pergunta que poucos fazem é por que essa repetição se sustenta: se os resultados são previsíveis, por que a participação continua tão fervorosa? Para correntes anarquistas, a resposta está em uma função que os partidos cumprem com eficiência silenciosa — não representar a sociedade, mas organizar sua submissão.
Primeiro, é preciso entender como o sistema partidário brasileiro funciona como filtro. Não há candidatura sem filiação, não há eleição sem registro em legenda, não há mandato sem verba de gabinete e fundo partidário. Essas regras, apresentadas como garantia de ordem democrática, operam na prática como mecanismo de exclusão: quem não se submete à lógica partidária fica fora do jogo. O operário que organiza seu bairro, a professora que mobiliza pais e estudantes, o agricultor que articula uma cooperativa — todos são invisibilizados pelo sistema, a menos que aceitem se tornar peça de alguma sigla. O partido não amplia a participação política: a canaliza, a controla, a transforma em mercadoria eleitoral.
Em seguida, é necessário observar o que acontece dentro dessas legendas. Empresários financiam campanhas esperando retorno em forma de legislação favorável, de isenções fiscais, de contratos públicos. O mensalão, a Lava Jato, o orçamento secreto e as emendas do relator não são escândalos de indivíduos corruptos: são a lógica normal do sistema funcionando às claras. Quando um partido chega ao poder, não muda a máquina — a máquina muda quem a ocupa, absorvendo sua energia, domesticando sua crítica, transformando militantes em gestores. Os programas sociais que alguns partidos defendem, segundo essa perspectiva, não eliminam a pobreza: a administram, criando dependência que garante lealdade eleitoral e mantém a estrutura de exploração intacta.
Por fim, surge a questão que o texto original colocava com toda a justa indignação: o que fazer diante disso? A resposta, na visão dessas correntes, não passa por novas filiações, novos votos ou novas esperas. Passa pela construção cotidiana de formas de organização que não dependam da autoridade vertical. Associações livres, cooperativas autogeridas, comitês de moradia, sindicatos de base, redes de apoio mútuo — essas não são utopias distantes, mas experiências concretas que acontecem agora, em bairros, fábricas e campos. A cerâmica FaSinPat na Argentina, as ocupações de terra pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Brasil, as coletivizações da Revolução Espanhola de 1936: todas demonstram que a produção e a organização social podem funcionar sem patrões, sem burocratas, sem donos.
A recusa ao voto, nessa leitura, não é abstencionismo passivo, mas gesto político de deslegitimação. Ao não escolher entre gestores do mesmo sistema, quem se recusa afirma que sua voz não se resume a um papel a cada dois anos. A desconfiança em relação aos partidos não é cinismo, mas lucidez: a história está repleta de promessas de transformação que terminaram em ajustes fiscais e acordos com o capital. A auto-organização não é conforto, é caminho árduo, porque exige que cada pessoa assuma a responsabilidade que o Estado e os partidos lhe roubaram.
O sistema se perpetua na medida em que aceitamos sua lógica como natural. Cada minuto de inação é minuto de morte evitável: fome, despejos, violência policial, destruição ambiental. A pior punição não é a prisão ou a multa, mas a continuidade desse mundo. Segundo essa perspectiva, a revolução social não é evento distante no calendário, mas prática cotidiana de recusa e construção. Conhecer o mundo em que se vive é o primeiro passo para não mais consentir com ele. E não consentir é, já, um ato de liberdade.
