Por Akracia – Fenikso Nigra
“Fomos de fumo embriagados / Paz entre nós, guerra aos senhores! / Façamos greve de Soldados! / Somos irmãos, trabalhadores!”A Internacional, Eugène Pottier, 1871

I. O Prometido e o Negado

A Revolução de 1917 abriu aos trabalhadores russos possibilidades históricas sem precedentes. Os sovietes — conselhos operários, camponeses e soldados — emergiram como organismos deliberativos, autônomos e descentralizados. Eram, em potência, a própria estrutura de uma sociedade autogestionada: espaços onde os produtores decidiram coletivamente sobre produção, distribuição e poder local.
Mas esse potencial foi sistematicamente sufocado. Em menos de três anos, a “ditadura do proletariado” de que falavam os bolcheviques converteu-se numa máquina de comando central, e os sovietes — outrora órgãos de deliberação popular — tornaram-se meras extensões administrativas do Estado, obrigados a abrigar comissários do partido em seu interior.

II. A Centralização como Estratégia de Poder

Durante a Guerra Civil (1918–1922), os sovietes foram reconfigurados. Passaram de organismos autônomos a estruturas subordinadas ao governo central. Essa transformação não foi acidental: foi política. A lógica vanguardista postulava que o partido detinha a “consciência científica” da revolução, e que as massas, por si sós, permaneceriam nas “trevas da ignorância proletária”. Dessa premissa derivava-se uma conclusão prática: os sovietes só teriam valor se obedecessem ao centro.
A presença obrigatória de representantes do Partido Comunista no interior dos sovietes não era uma medida de coordenação revolucionária — era controle. A autonomia local foi dissolvida em nome da “unidade de comando”, e o que restou foi uma estrutura burocrática em que os trabalhadores votavam em decisões já tomadas em outro lugar.

III. O Exército Vermelho e a Repressão Interna

A hierarquização do poder não se limitou aos sovietes. Sob a supervisão de Leon Trotski, o Exército Vermelho foi estruturado segundo princípios militares convencionais: conscrição obrigatória, disciplina rígida, comando vertical e a reincorporação de oficiais do antigo exército tsarista. O argumento era a necessidade de derrotar os exércitos brancos de Denikin, Koltchak e Wrangel — e essa necessidade era real.
Mas o mesmo aparato militar, uma vez consolidado, voltou-se para dentro. Milícias autogestionadas, comitês de fábrica e conselhos camponeses que não se alinhavam ao governo central foram desarmados ou reprimidos. A força que deveria defender a revolução tornou-se o braço armado de um Estado em construção — e esse Estado, longe de emancipar o proletariado, o subordinou.
A repressão à Comuna de Kronstadt (1921), onde marinheiros e trabalhadores exigiram eleições livres para os sovietes, liberdade de expressão e fim da requisição forçada de grãos, é o episódio mais emblemático. Os mesmos que em 1917 haviam sido celebrados como heróis da revolução foram massacrados por recusarem-se a aceitar que o partido substituísse a classe operária.
Do mesmo modo, o movimento camponês liderado por Nestor Makhno — que havia combatido os exércitos brancos ao lado dos bolcheviques — foi traído e esmagado assim que deixou de ser útil militarmente. A autogestão territorial que os makhnovistas construíram na Ucrânia foi dissolvida, não porque ameaçasse a revolução, mas porque ameaçava o monopólio do partido sobre o poder.

IV. A Lógica Vanguardista e sua Herança

O problema não era apenas Stalin. A burocratização, a centralização e a repressão encontram raízes na própria concepção de partido vanguardista defendida por Lenin e operacionalizada por Trotski. A ideia de que uma minoria iluminada deveria “conduzir” as massas à revolução — e, no período de transição, “educá-las” mediante palavras de ordem cada vez mais resolutas — carregava em si a negação da autogestão.
A IV Internacional, fundada por Trotski em 1938, reproduziria essa lógica. Em seu Programa de Transição, a tarefa das seções internacionais era “ajudar a vanguarda proletária a compreender o caráter geral e o ritmo de nossa época” — isto é, substituir a reflexão coletiva pela orientação de cima para baixo. O que se vendia como liderança revolucionária era, na prática, a substituição do proletariado por sua suposta representação.

V. O Período de Transição como Logro

Os períodos de transição, longe de serem etapas necessárias à revolução, revelaram-se freios às vontades mais urgentes do proletariado: a expropriação imediata dos meios de produção, a autogestão dos trabalhadores, a abolição da propriedade privada e da herança, e o fim de toda estrutura burocrática fixa.
O que se instituiu, em vez disso, foi um Estado que se afirmava como “operário” enquanto concentrava o poder nas mãos de uma casta dirigente. Os sindicatos foram subordinados ao aparelho estatal. As milícias descentralizadas foram absorvidas ou destruídas. E os sovietes, que deveriam ser o coração da nova sociedade, tornaram-se seu fantoche.

VI. Conclusão: A Lição dos Derrotados

A história dos sovietes, de Kronstadt e do movimento makhnovista não é uma mera curiosidade do passado. É um aviso. Toda estrutura que se coloca acima da classe trabalhadora em nome de sua própria emancipação acaba por reproduzir, sob novos rótulos, as mesmas formas de dominação que prometia abolir.
A crítica às estruturas vanguardistas não é sectarismo: é a defesa de que a revolução, para ser autêntica, deve ser obra direta dos trabalhadores, sem intermediários que monopolizem a palavra e a decisão. Os sovietes de 1917 demonstraram que isso era possível. O que se seguiu demonstrou o preço de abandoná-los.

Referências Sugeridas

  • Nestor Makhno, A “revolução” contra a revolução
  • Alexandre Skirda, Les anarchistes dans la révolution russe
  • Piotr Kropotkin, Textos escolhidos (seleção de Maurício Tragtenberg)
  • Irving Luis Horowitz, Los anarquistas (tomo 2)
A Farsa da Vanguarda: Como a Revolução Russa Devorou seus Próprios Sovietes