Por Akracia – Fenikso Nigra

Há muito tempo somos roubados, saqueados, violentados por quem detém poder, por quem oprime e explora. O vandalismo está na fila diária por remédio, por transporte, por moradia, por vaga na escola. Nossa população sofre há décadas esse vandalismo silencioso, que dilapida nossa produção e nossa riqueza — e, por quem o pratica estar no próprio poder, com autoridade para legislar e executar em causa própria, até agora o povo mal conseguia externar sua insatisfação com esses parasitas de partido, empresário, banqueiro, latifundiário, corporação nacional e internacional: em suma, toda a corja escondida dentro do modelo capitalista e de seu Estado mercenário.

Quando o limite se rompe, as ruas se enchem de gente gritando para que esses parasitas vão embora — e mais do que isso, atacando símbolos do poder econômico das grandes corporações. Visto como espelho dos grandes roubos empresariais e partidários, há quem roube e saqueie nas ruas também. Se entendermos que a produção deveria atender à necessidade do povo, e não à ganância e à cobiça de quem explora e oprime, esses atos ganham outro sentido: recuperação de patrimônio que nasceu do esforço coletivo e deveria, por direito, estar disponível a esse mesmo coletivo. Vale reconhecer, porém, que o saque na prática raramente escolhe tão bem seu alvo quanto a teoria sugere — atinge, com frequência, o pequeno comércio de bairro tanto quanto a grande rede, confundindo quem produz com quem de fato concentra riqueza.

Boa parte de quem participa desses atos talvez nem reflita sobre tudo isso: aproveita a oportunidade, e ponto. Mas basta que aconteça para que quem está no poder, temendo perder seu monopólio de apropriação, mande a força policial reprimir e prender quem considera “arruaceiro”.

Nossa história está cheia desses supostos arruaceiros. Chegaram de caravela e vandalizaram povos indígenas inteiros; vandalizaram o continente africano e trouxeram, acorrentadas, levas e levas de pessoas escravizadas, que produziram fortuna atrás de fortuna para quem as escravizava. De colônia a país, o vandalismo seguiu solto em forma de repressão a levante popular após levante popular. Mesmo com status de Império, a monarquia sugou riqueza desta região por quase sete décadas. Veio depois uma República de fachada, erguida sobre golpe — e, de golpe em golpe, fomos vandalizados por barão de café, barão de açúcar, por militar em 1964 e, mais recentemente, por quem um dia se disse partido do povo. Isso cansa. E quando chega ao limite da paciência — porque nosso povo não é dócil, é paciente, e depositou esperança em quem parecia mais coerente, para depois ser traído também por esses —, o repúdio finalmente se externa contra essa mesma lógica de vandalismo perpetuada pelo Estado e por quem o administra. Foi vandalismo trazer uma Copa do Mundo para cá e erguer estádio bilionário enquanto o país arrasta um déficit habitacional de quase 6 milhões de moradias.

Como muita gente já disse: vandalismo é colocar dinheiro público em arena esportiva em vez de casa popular, remédio e estrutura decente de saúde pública. Vandalismo é ceder ao interesse de quem explora transporte público e deixar a população com transporte caro, lotado e de péssima qualidade. Esse é o vandalismo que tanta gente atravessa há anos, sem alarde e sem manchete.

Agora que o caldo entornou, os mesmos de sempre voltam com promessa que sabemos não cumprir, e querem calar o povo outra vez. Não. São os cidadãos nas ruas que vão parar o vandalismo de quem está no poder — por mais transporte decente e mobilidade urbana de qualidade, por mais educação, mais saúde e mais moradia.

O vandalismo do poder
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