
Por Akracia – Fenikso Nigra
Caminhar pelos corredores de um supermercado é, para quem ainda consegue enxergar, uma experiência de estranhamento. Prateleiras abarrotadas de produtos que talvez expirem antes de encontrar alguém disposto a comprá-los. Frutas perfeitas demais, descartadas porque nasceram com uma forma considerada inadequada. Carnes embaladas a vácuo, empilhadas e refrigeradas em quantidade suficiente para alimentar centenas de pessoas, enquanto, a poucos quilômetros dali, alguém dorme com fome. Há algo profundamente absurdo nessa paisagem de abundância cercada pela privação.
E o desperdício não é um acidente ocasional. Ele faz parte da engrenagem. Produz-se mais do que o necessário, não porque a vida exija tamanha abundância, mas porque o mercado exige circulação, venda, preço, lucro. Quando aquilo que sobra deixa de ser rentável, pode ser mais conveniente destruí-lo do que distribuí-lo. A comida continua sendo alimento, mas, para o capital, ela só possui valor enquanto puder ser transformada em mercadoria.
É aí que a contradição se revela em toda a sua brutalidade: produzimos o suficiente para alimentar milhões, mas milhões continuam sem acesso ao alimento. Não porque a humanidade tenha esquecido como produzir, mas porque transformou o acesso àquilo que sustenta a vida em uma questão de poder de compra. A fome deixa de ser apenas uma tragédia humana e passa a ser também uma consequência de uma sociedade que decide quem pode comer segundo a capacidade de pagar.
O mesmo mecanismo aparece em toda parte. Roupas são produzidas em excesso e descartadas enquanto trabalhadores que as fabricam sobrevivem com salários miseráveis. Florestas são derrubadas para abrir espaço para mercadorias. Rios são contaminados para reduzir custos. Terras são concentradas, comunidades são expulsas e alimentos são destinados ao mercado global enquanto pessoas próximas às áreas de produção permanecem sem o necessário para viver.
Chamam isso de desenvolvimento.
Chamam isso de eficiência.
Chamam isso de progresso.
Mas que espécie de progresso precisa destruir aquilo que sustenta a própria vida?
As grandes empresas que controlam parcelas imensas da produção de alimentos, das sementes, da carne e da distribuição não enxergam uma floresta como floresta, um rio como rio ou uma terra como território de vida. Enxergam recursos, ativos, produtividade, mercado. O Estado, tantas vezes apresentado como árbitro entre interesses, frequentemente participa dessa engrenagem por meio de subsídios, concessões, incentivos e leis que protegem determinadas formas de exploração. Quando comunidades resistem, aparecem a polícia, os tribunais, a burocracia e toda a força institucional necessária para lembrar quem possui o direito de decidir.
Por isso, a destruição não pode ser explicada apenas como resultado da ganância de alguns indivíduos. Há algo maior em funcionamento. Existe uma estrutura econômica que recompensa quem transforma cada pedaço de terra, cada rio, cada animal, cada hora de trabalho e cada necessidade humana em oportunidade de lucro.
A catástrofe ambiental não é um acidente na estrada do capital. Muitas vezes, é a própria estrada.
E diante disso nos oferecem pequenas soluções individuais. Comprar de maneira consciente. Reciclar. Escolher outro produto. Consumir menos. Todas essas atitudes podem ter seu valor, mas não podem carregar sozinhas o peso de uma estrutura inteira. Não adianta ensinar alguém a separar corretamente o lixo enquanto empresas continuam produzindo mercadorias planejadas para serem descartadas. Não basta pedir ao indivíduo que consuma melhor quando toda a economia está organizada para fazê-lo consumir cada vez mais.
O problema está muito além da escolha diante da prateleira.
A questão é quem decide o que produzir, para quem produzir, em que quantidade e com qual finalidade.
Se a finalidade é o lucro, haverá sempre algum momento em que alimentar pessoas será menos importante do que manter preços, margens e mercados. Se uma terra produz mais dinheiro como mercadoria do que como espaço de vida, o dinheiro será usado como argumento para expulsar quem vive nela. Se uma floresta vale mais derrubada do que em pé, haverá alguém disposto a derrubá-la.
É contra essa lógica que a resistência precisa ir além do consumo.
Ela pode começar na terra ocupada, na fábrica recuperada, na horta comunitária, na cozinha coletiva, na rede de apoio mútuo, na produção organizada por quem trabalha e na distribuição construída por quem precisa. Pode aparecer onde pessoas deixam de esperar que o mercado resolva aquilo que o próprio mercado transformou em problema.
As experiências de autogestão, as ocupações de terra, as fábricas recuperadas e as coletivizações libertárias demonstram, cada uma em seu contexto e com suas próprias contradições, que produzir e distribuir não precisam ser atividades subordinadas à autoridade de proprietários e administradores distantes. A vida pode ser organizada a partir das necessidades de quem a vive.
É aí que a questão deixa de ser apenas econômica e se torna profundamente política.
Quem controla a produção controla uma parte enorme da vida. Quem controla a terra controla o alimento. Quem controla o alimento controla a sobrevivência. Quem controla os meios de produzir controla também aqueles que precisam deles para viver.
Por isso, a luta não pode se limitar a pedir que os donos sejam mais responsáveis. É preciso questionar a própria existência de donos daquilo que é necessário à vida.
O sistema se mantém enquanto aceitamos suas regras como se fossem leis da natureza. Como se fosse inevitável destruir comida enquanto alguém passa fome. Como se fosse inevitável contaminar rios para produzir riqueza. Como se fosse inevitável trabalhar até a exaustão para ter acesso ao que nós mesmos produzimos.
Nada disso é inevitável.
São escolhas humanas.
E aquilo que foi construído por seres humanos também pode ser destruído, transformado e reconstruído.
Talvez seja esse o verdadeiro significado do penhasco. Não estamos diante de um destino escrito, mas de uma escolha. Continuar caminhando como se o abismo não existisse ou interromper o caminho e começar a construir outra forma de viver.
O supermercado está cheio. A terra continua produzindo. As mãos continuam trabalhando. O conhecimento continua existindo.
O que falta não é capacidade de produzir.
Falta romper com uma sociedade que prefere destruir o que não pode vender a permitir que aquilo que produzimos pertença a quem precisa.
A revolução começa quando deixamos de aceitar que a vida tenha de pedir licença ao lucro para existir.
