Por Akracia – Fenikso Nigra

Conhecimento é arma poderosa, e deveríamos difundi-lo da forma mais ampla possível. O que interessa de verdade é que cada pessoa desenvolva consciência e, através dela, capacidade de análise, reflexão e ação. A ignorância só serve a quem já manda.

Mas a educação institucional se tornou referência obrigatória, ditando a forma moral e política da população — e faz isso de modo profundamente desigual. Existem, na prática, dois sistemas educacionais dentro de um só nome. De um lado, a educação de massa, cada vez mais preocupada com resultado numérico do que com profundidade: reformas como a do Novo Ensino Médio, criticadas por especialistas por fragmentar o currículo em “itinerários” que variam conforme o orçamento de cada escola, ajudam a garantir que exista mão de obra certificada — com diploma, com carga horária cumprida — sem que isso signifique, necessariamente, formação sólida. É importante que exista prova de escolaridade. Não é tão importante que essa escolaridade signifique alguma coisa.

De outro lado, existem espaços educacionais de altíssimo preparo, com objetivo claro numa sociedade que continua, na prática, hierarquizada: formar o grupo que vai dirigir as diversas áreas da vida social — política, direito, medicina, engenharia — e ditar os rumos de tudo o mais. Os números confirmam essa separação com uma clareza incômoda: estudantes de escola particular têm mais do que o dobro de chance de entrar na universidade em comparação com quem cursou escola pública, segundo estudo publicado na Ciência & Saúde Coletiva, e cursos de medicina no país continuam recrutando, majoritariamente, quem fez o ensino médio em escola particular — mesmo depois de mais de uma década de política de cotas. A separação de classe não termina na porta da escola: ela decide, ainda antes do vestibular, quem vai comandar hospital e quem vai ser paciente sem voz na fila.

Numa pseudodemocracia, esse fato não pode aparecer claro demais — precisa vir floreado, maquiado num discurso de igualdade formal. A Constituição garante educação como direito de todos; a aplicação prática, porém, segue relação censitária: quem tem condição econômica é quem realmente usufrui das prerrogativas que a lei promete a todos por igual.

Essa mesma lógica aparece fora da escola, na relação entre Estado e sociedade civil organizada. Basta ver quais entidades têm acesso fácil e recorrente a ministérios e conselhos: associações empresariais e patronais aparecem com frequência muito maior do que entidades populares nesses espaços de consulta — e não é raro que ministros, presidentes e consultores de governo circulem entre congressos e encontros dessas mesmas associações. Essa proximidade acontece diante de todos, mas passa quase despercebida numa população pouco estimulada a exercitar pensamento crítico — o que é, aliás, o resultado exato que uma educação rasa produz: formar gente ignorante é sucesso, não fracasso, para quem se beneficia da desigualdade que essa ignorância sustenta. Sustenta, também, modelos de “harmonia social” nacionalista, filantrópica — vale ler “pilantrópica” — e assistencialista, sempre aliviando sintoma, nunca tocando causa.

Essa dualidade educacional não é erro, é o sistema funcionando exatamente como projetado. Já no início do século XX, o educador catalão Francisco Ferrer defendia escolas modernas, laicas e racionalistas, livres do controle da Igreja e do Estado, capazes de formar consciência crítica em vez de obediência — modelo que inspirou, no Brasil, as escolas mantidas por sindicatos anarco-sindicalistas antes da repressão da Velha República e da ditadura Vargas as varrer do mapa. A proposta seguia direta: quem controla a educação controla o horizonte de possibilidades que uma geração inteira consegue sequer imaginar.

Por isso a revolução começa mesmo pela educação — não como slogan vazio, mas como constatação prática: nenhuma transformação social profunda sobrevive numa população treinada, desde a infância, para aceitar hierarquia como natural e desigualdade como destino. Reverter isso não significa esperar que o Estado reforme currículo. Significa construir, desde já, espaço de aprendizagem coletiva fora da lógica de certificação e ranking — onde consciência crítica, e não obediência, seja o verdadeiro produto final.

A revolução começa pela educação
Tags: