Por Akracia – Fenikso Nigra

Está em crise porque não quis mudar com ele

Há uma desconversa confortável que atravessa parte da militância libertária: a de que o anarquismo continua vivo, apenas disperso, e de que a culpa por não constituir um movimento social expressivo cabe inteiramente ao capitalismo, sempre tão hábil em reprimir, cooptar e derrotar seus adversários. Parte dessa explicação é verdadeira. O capitalismo mudou profundamente, e essas transformações alteraram as condições da luta social. A Revolução Russa e a repressão bolchevique desorganizaram importantes setores do movimento libertário; a institucionalização da luta operária em sindicatos e partidos integrou parcelas do movimento à lógica burocrática e reformista; a reestruturação produtiva fragmentou antigas concentrações de trabalhadores e modificou as formas de exploração, organização e resistência. A imagem de um proletariado homogêneo, destinado quase naturalmente à revolução, já não dá conta da complexidade do mundo do trabalho. Ignorar essas mudanças seria fechar os olhos para a realidade. Mas usá-las como explicação para todas as nossas derrotas é uma maneira conveniente de escapar à autocrítica.

Há um fator mais incômodo: boa parte do anarquismo não soube responder a essas transformações. Em vez de renovar suas práticas, aprofundar suas análises e experimentar novas formas de organização, setores do movimento refugiaram-se em fórmulas herdadas, palavras de ordem repetidas mecanicamente e disputas doutrinárias que pouco dizem sobre os conflitos do presente. Confundiram fidelidade à tradição com repetição, coerência ideológica com imobilismo e radicalidade verbal com capacidade de transformação. O resultado aparece na fragmentação de grupos que, embora compartilhem a oposição à autoridade e à exploração, frequentemente gastam mais energia questionando a legitimidade uns dos outros do que construindo iniciativas comuns. O isolamento anarquista não foi produzido apenas pela repressão externa. Também foi alimentado por nossas próprias práticas.

E aqui convém ser duro, porque a delicadeza já nos custou caro. Há grupos que passam mais tempo vigiando a pureza alheia do que enfrentando o poder. São pequenos tribunais de inquisição ideológica, com a diferença de que queimam menos e falam mais. Cada divergência vira sentença de expulsão, cada desacordo vira prova de que o outro serve à revolução errada. Enquanto isso, o capital segue rindo, e não é pouco. A autofagia não é apenas um defeito de convivência: é uma escolha política, e uma escolha que serve ao inimigo.

A diversidade sempre fez parte da tradição libertária. Não existe uma única interpretação do anarquismo, nem seria desejável que existisse. Sua riqueza está justamente na possibilidade de diferentes experiências, ideias e formas de organização confrontarem-se sem que uma autoridade central determine qual delas merece existir. O problema começa quando essa pluralidade é substituída pela disputa de ortodoxias, quando militantes se convertem em fiscais da pureza ideológica e cada grupo se proclama guardião da verdadeira anarquia. Nesse terreno, a divergência deixa de ser uma oportunidade de aprendizagem e transforma-se em suspeita, hostilidade e autofagia. Em nome da emancipação, reproduzimos a lógica da exclusão; em nome da liberdade, tentamos impor aos outros a nossa interpretação da liberdade. Que espécie de revolução pode nascer de relações que já reproduzem a submissão que afirmamos combater?

É hora de abandonar as disputas de propriedade da verdade. Não faz sentido transformar o anarcossindicalismo na única estratégia revolucionária legítima, como se o anarcocomunismo fosse necessariamente incapaz de promovê-la — ou inverter a acusação e fazer do comunismo libertário o único horizonte aceitável. Tampouco cabe decretar que o anarcoindividualismo, o anarquismo cristão de Tolstói ou outras tradições libertárias estão, por definição, fora das fronteiras da anarquia. Isso não significa fingir que as divergências são irrelevantes, nem dissolver diferenças teóricas em uma fraternidade artificial. Há conflitos reais sobre os meios, os fins e a própria compreensão da liberdade. O que não faz sentido é transformar cada divergência em sentença de expulsão e cada desacordo em prova de que o outro serve à revolução errada. Podemos discutir, criticar e rejeitar ideias sem reivindicar o direito de silenciar quem as sustenta. Trincheiras doutrinárias podem proteger identidades; dificilmente derrubam as estruturas de poder.

Precisamos, portanto, de uma cultura política capaz de unir firmeza de princípios e liberdade de divergência. Isso exige diálogo, mas não um diálogo vazio, destinado a evitar qualquer conflito. Exige a disposição de confrontar ideias sem converter adversários teóricos em inimigos pessoais, construir acordos sem exigir uniformidade e cooperar sem entregar a uma direção o poder de decidir por todos. Grupos autônomos podem compartilhar objetivos, desenvolver ações conjuntas e avaliar coletivamente seus resultados sem abdicar de suas particularidades. A unidade que interessa ao anarquismo não é a obediência a uma linha única: é a capacidade de agir em comum sem instituir uma autoridade que se coloque acima de quem age. Não precisamos pensar todos da mesma maneira. Precisamos aprender a fazer da diferença uma força, em vez de uma desculpa para a paralisia.

E é aqui que a conversa fica séria, porque a horizontalidade não se garante com boas intenções. Na prática, quem tem mais tempo, mais energia e menos vida pessoal tende a dominar a assembleia, e a horizontalidade vira fachada. A diferença não se converte em força por decreto: converte-se em força quando existem mecanismos concretos de rotação de tarefas, de circulação de informação, de revogabilidade de mandatos e de vigilância coletiva contra a acumulação informal de poder. Sem isso, a organização mais libertária do mundo reproduz, em pequena escala, o que jura combater.

Essa renovação também exige rever a maneira como compreendemos a transformação social. A classe trabalhadora continua submetida à exploração, mas não constitui um bloco homogêneo, dotado de uma consciência revolucionária automática. A precarização, a fragmentação do trabalho e as diferenças de experiência dificultam a construção de interesses e ações comuns. Além disso, as relações de dominação não se esgotam no conflito entre capital e trabalho: atravessam também o gênero, a origem, o racismo, a sexualidade e outras formas de hierarquia. Essas dimensões não precisam competir entre si por prioridade; podem revelar como a dominação se manifesta em diferentes aspectos da vida e como as lutas por emancipação podem convergir. Isso não exige abandonar a análise de classe, mas recusar sua transformação em explicação exclusiva de toda opressão. Nenhuma categoria social, por si só, garante uma prática libertária. O que importa é a capacidade de transformar experiências de exploração e resistência em organização autônoma, solidariedade e ação comum.

A liberdade individual tampouco se realiza no isolamento. A autonomia precisa de relações nas quais as pessoas possam decidir, participar e discordar sem se submeter a uma vontade superior. O indivíduo não é matéria-prima a ser moldada por um projeto coletivo, assim como a coletividade não é uma simples soma de indivíduos isolados. Ambos se constituem nas relações que estabelecem. Por isso, uma organização libertária deve ser julgada não apenas pelo objetivo que proclama, mas também pelos meios que emprega, pela distribuição efetiva do poder e pela liberdade que permite a quem participa dela. Não basta defender uma sociedade sem amos se, dentro dos próprios grupos, alguns se arrogam o direito de comandar e outros acabam condenados a obedecer.

Há ainda uma dimensão incontornável dessa renovação: o internacionalismo. A destruição ambiental, a exploração econômica e os deslocamentos forçados atravessam fronteiras, assim como o capital e as estruturas de poder que os sustentam. A ação local é indispensável, mas não basta para enfrentar problemas que se reproduzem em escala planetária. É necessário construir vínculos entre experiências, compartilhar conhecimentos, articular iniciativas e fortalecer a solidariedade para além das fronteiras nacionais. Jornais, revistas, rádios, encontros, manifestações e redes digitais podem contribuir para isso, desde que não se convertam em substitutos da organização real. A comunicação só ganha força política quando ajuda pessoas e grupos a estabelecer relações, coordenar ações e sustentar lutas comuns. O internacionalismo não pode ser apenas uma declaração inscrita em nossos textos; precisa existir nas práticas.

Não se trata, portanto, de abandonar a utopia. Trata-se de abandonar a pose. E a pose que este texto critica também mora nele: o equilíbrio ponderado, o tom de quem já entendeu tudo, a elegância de quem não se suja. A anarquia não será revitalizada por quem reivindica sua propriedade, recita fórmulas do século XIX como se a história tivesse parado ou transforma cada divergência em uma guerra de pureza ideológica. Tampouco renascerá de uma unidade artificial que sacrifique a autonomia em nome da eficiência. Ela só poderá ganhar força se formos capazes de confrontar a realidade sem dogmas, aprender com nossas derrotas e construir formas de cooperação coerentes com a liberdade que defendemos. O capitalismo não precisa que concordemos com ele; basta que nossas divergências nos impeçam de agir. A pergunta, portanto, não é qual vertente tem o monopólio da verdade. É se estamos dispostos a construir algo juntos, preservando nossas diferenças, antes que a autofagia termine o serviço que o capital começo

O anarquismo não está em crise porque o mundo mudou.
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