Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

No dia da eleição, as ruas se enchem de bandeiras, de jingles, de sorrisos forçados e de promessas que já nascem velhas. A máquina eleitoral funciona a todo vapor, convencendo a população de que aquele é o momento mais importante da democracia, o dia em que o poder volta, magicamente, para as mãos do povo. Mas basta olhar para o outro lado da cidade, para as periferias, para os territórios indígenas, para as comunidades quilombolas, para as favelas, para ver que a festa não chega a todos. Enquanto os candidatos discursam sobre futuro e esperança, a polícia invade casa, o despejo avança, o garimpo devasta a floresta e o presídio engole mais corpos. A eleição, nesse sentido, é o maior paradoxo do sistema: convida a população a escolher seus governantes enquanto a violência institucional continua operando sem interrupção, independentemente de quem vença.

A repressão não dá férias para a campanha eleitoral. Pelo contrário, muitas vezes se intensifica justamente nesses períodos, como se o Estado precisasse mostrar quem manda de verdade enquanto vende a ilusão de que quem manda é o eleitor. Operações policiais em comunidades pobres se multiplicam, lideranças territoriais são assassinadas, defensores e defensoras de direitos humanos sofrem ameaças, e a imprensa, ocupada com as pesquisas de intenção de voto, mal registra o que acontece do lado de fora do estúdio. A violência não é um acidente do sistema, um defeito a ser corrigido pelo próximo governante. É o funcionamento normal da máquina, a rotina de quem precisa manter a ordem para que a acumulação de riqueza continue fluindo sem obstáculos. O candidato que promete acabar com a violência policial, se eleito, descobrirá rapidamente que a polícia não responde a quem ocupa o palácio. Responde a quem financia a campanha, a quem controla a mídia, a quem define o que é ordem e o que é perigo social.

Esse paradoxo se acentua quando se observa quem são as vítimas permanentes da violência estatal. Não são os donos de bancos, não são os latifundiários, não são os empresários que desmatam e exploram. São os corpos negros, os corpos indígenas, os corpos periféricos, os corpos que ousam resistir. A eleição, ao convidar esses mesmos corpos a votar, oferece uma participação simbólica que mascara a exclusão material. Diz-se que todos são iguais na urna, que o voto do rico vale o mesmo que o voto do pobre. Mas o que vale não é o voto. O que vale é a capacidade de sobreviver até o dia seguinte, de não ser assassinado por um policial antes de chegar à seção eleitoral, de não ser despejado da própria terra enquanto o candidato promete moradia digna. A igualdade formal do voto esconde a desigualdade brutal da vida.

As vertentes anarquistas têm apontado que não há como separar a violência do Estado de sua forma de governo. A repressão não é um excesso de alguns governantes ruins; é a condição de possibilidade de todo governo. Quem governa precisa, em última instância, contar com a obediência, e a obediência, quando falta, é obtida pela força. A polícia, o exército, os tribunais, os presídios: tudo isso compõe a arquitetura de medo que sustenta a autoridade. A eleição, nesse cenário, funciona como maquiagem. Dá ao rosto do poder uma aparência de suavidade, de aceitação, de consenso. Mas por baixo da maquiagem, a estrutura de violência permanece intacta, operando nos interstícios onde a câmera não alcança.

Recusar o voto, nesse contexto, é recusar a maquiagem. É dizer que não se aceita a festa enquanto a violência continua. É reconhecer que a mudança real não passa pela escolha de quem administrará a repressão, mas pela organização de quem a sofre para resistir a ela. Anular o voto não é garantia de que a violência cessará. Mas é o gesto de quem se recusa a legitimar, com sua presença nas urnas, um sistema que mata todos os dias e que, no dia da eleição, ainda tem a audácia de pedir o voto das vítimas.

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