Por Akracia – Fenikso Nigra

A tentação de abandonar as palavras antigas nunca foi tão sedutora quanto na era das marcas, dos algoritmos e do marketing de causas. Diante do desgaste que a palavra anarquia sofreu ao longo de mais de um século de propaganda estatal e sensacionalismo midiático, surge frequentemente o conselho de substituí-la por fórmulas mais palatáveis. Sugere-se adornar a crítica ao poder com expressões suaves ou diluí-la em rótulos menos ameaçadores, sob o pretexto de conquistar a simpatia do público e dialogar com a prudência das maiorias. Essa busca por uma linguagem polida, contudo, pode acabar tornando inofensiva a crítica social que se pretendia fortalecer.

O desconforto provocado pela palavra anarquia não decorre de uma falha de vocabulário, mas do caráter radical de sua proposta. A perspectiva de uma vida sem chefes, tutores burocráticos ou autoridades coercitivas inquieta porque coloca as pessoas diante da responsabilidade de conduzir a própria existência. Enquanto a emancipação permanece no terreno das ideias, desperta simpatias e sorrisos indulgentes. Quando, porém, exige abandonar a obediência e construir outras formas de convivência, o entusiasmo frequentemente cede lugar à hesitação. Educadas desde a infância para respeitar hierarquias, muitas pessoas acabam confundindo a ausência de domínio com a iminência do caos.

Essa contradição aparece na facilidade com que a palavra liberdade é celebrada na política, na publicidade e nos discursos corporativos. A liberdade costuma ser bem recebida quando significa um conjunto de permissões concedidas e administradas por uma autoridade que conserva o poder de restringi-las ou revogá-las. Há conforto em receber garantias de cima para baixo: a promessa de uma vida protegida por leis e conduzida por tutores oferece a segurança aparente de quem prefere confiar a outros as decisões que dizem respeito à própria existência.

Imaginemos uma sociedade perfeitamente organizada, na qual cada aspecto da vida esteja previsto por algoritmos, regulamentos minuciosos ou uma gestão pública supostamente esclarecida. Prometa-se felicidade, consumo sustentável e segurança em uma estrutura pronta, reluzente e cuidadosamente planejada. Muitos poderão aplaudir a perspectiva de usufruir desse mundo sem participar de sua construção. É mais fácil desejar uma sociedade perfeita quando outra pessoa se encarrega de organizá-la.

Façamos, então, uma proposta diferente: que as pessoas assumam a gestão de seus locais de trabalho, escolas e bairros por meio de assembleias horizontais, redes de apoio mútuo e acordos voluntários, sem entregar a decisão final a governantes ou representantes profissionais. Isso exige tempo, participação, debate, capacidade de negociação e disposição para assumir, coletivamente, os riscos e as consequências das próprias escolhas. A autonomia não elimina as dificuldades nem garante que todas as decisões sejam acertadas. Exige, justamente, que as pessoas aprendam a enfrentá-las sem transferir a uma autoridade o poder permanente de decidir por elas.

É nesse ponto que a liberdade deixa de ser uma promessa a consumir e se torna uma prática a construir. Nem todos estão preparados para assumir essa responsabilidade, sobretudo em uma sociedade que ensina a obedecer e pune quem desafia as hierarquias. Mas a dificuldade de construir relações livres não justifica a perpetuação da tutela. Ao contrário: torna ainda mais necessária a criação de formas de solidariedade que permitam compartilhar responsabilidades, enfrentar conflitos e sustentar a autonomia de cada um. Ninguém precisa ser autossuficiente para ser livre; precisa, sim, poder cooperar sem se submeter.

O desafio, portanto, não consiste em fazer com que as pessoas apreciem novas concessões, mas em despertar o desejo pela liberdade integral. A anarquia não é uma sociedade perfeita, livre de conflitos, nem uma fórmula mágica capaz de resolver todos os problemas humanos. É a recusa de aceitar que a força e a autoridade sejam condições necessárias à vida coletiva. É a confiança na capacidade de as pessoas produzirem, cuidarem, criarem e conviverem por meio da cooperação, sem senhores que determinem seus destinos.

Substituir a palavra anarquia apenas para escapar do preconceito é uma ilusão tática. Mudar o nome sem preservar a crítica ao poder significa permitir que os adversários definam os limites daquilo que podemos dizer e imaginar. Não há necessidade de transformar a palavra em dogma nem de recusar outras formas de explicar nossas ideias. O que não podemos fazer é abandoná-la por vergonha de uma reputação fabricada por aqueles que têm interesse em associar a liberdade à desordem. Renunciar ao termo por medo de sua história é também renunciar à memória de quem enfrentou a tirania sem pedir licença às autoridades.

O dragão que guarda a entrada da anarquia não é invencível. Alimentam-no o medo da responsabilidade, o hábito da obediência e a crença de que precisamos de alguém para governar nossas vidas. Não será uma palavra mais agradável que o fará desaparecer, nem uma autoridade benevolente que nos conduzirá à emancipação. A liberdade começa quando deixamos de esperar que alguém a conceda e assumimos, em solidariedade com os demais, a tarefa de construí-la.

Como escreveu Élisée Reclus: “O dragão que está à porta da Anarquia nada tem de terrível: é uma palavra apenas!”

O preconceito com anarquia
Tags: