
Por LoBo – Fenikso Nigra
Chega de entregar a outros aquilo que pertence a todos.
Durante séculos nos ensinaram a obedecer. Disseram que alguns nasceram para mandar e outros para cumprir ordem; que precisamos de governante para pensar por nós, de representante para falar em nosso nome, de burocrata para administrar nossa própria existência. Construíram palácio para poucos e chamaram isso de democracia. Construíram instituição para governar sobre nós e chamaram isso de ordem. Nós recusamos essa ordem.
Não queremos escolher quem vai nos governar. Não queremos trocar nome de governante, cor de partido ou composição de parlamento para continuar submetidos à mesma lógica. Não queremos representante permanente para decidir aquilo que podemos decidir direto, nem intermediário entre nossa vontade e nossa própria emancipação. Queremos autogoverno: a palavra final sobre o que organiza nossa vida deve estar nas mãos de quem vive essa vida — a comunidade decidindo sobre o próprio assunto, o trabalhador sobre o que produz, o coletivo sobre o que constrói.
A assembleia não é sala onde se espera autorização para viver. É onde a autoridade começa a morrer — onde política deixa de ser espetáculo e volta a ser prática, onde quem sempre foi tratado como objeto da decisão se torna, enfim, sujeito dela.
E quando alguma tarefa precisar ser delegada, delegamos a função — nunca o poder. Delegado não é governante novo: tem tarefa definida, mandato limitado, fica sob controle da assembleia e pode ser substituído a qualquer momento. Nada de cargo eterno. Nada de dirigente profissional. Nada de vanguarda iluminada dizendo ao povo o que o povo deve fazer. A revolução que precisa de donos novos para funcionar já nasceu derrotada.
Isso não é promessa para depois da revolução — é prática revolucionária já, no presente. Assunto econômico e social deve voltar para as mãos de quem dele participa: comunidade, local de trabalho, coletivo, articulando-se livremente entre si, sem centro que determine tudo. Não é utopia distante: foi assim que operários coletivizaram fábrica e campo inteiros na Catalunha de 1936, sem patrão nem burocracia central, e é assim que comunidades zapatistas em Chiapas decidem, há três décadas, por assembleia e mandato revogável. Descentralizar não divide força — impede que alguém consiga concentrá-la.
E não nos venham dizer que isso é desordem. Desordem é minoria possuir riqueza produzida por milhões. Desordem é alguém decidir sobre a vida de milhares só porque ocupa cadeira de autoridade. Desordem é chamar de democracia uma sociedade em que o povo só é lembrado na hora de votar.
Porque votar não significa governar. Votar significa escolher quem vai receber autorização institucional para exercer certa função de poder — a decisão cotidiana segue separada de quem será afetado por ela. Troca-se o administrador, preserva-se a administração. Troca-se o partido, preserva-se a estrutura. Troca-se o discurso, preserva-se a distância entre quem governa e quem é governado. E então somos chamados a celebrar essa troca como se tivesse destruído a própria lógica do poder. Não destruiu.
O problema não é simplesmente quem governa — é o fato de que alguém governa. Não é só má representação — é a própria representação como substituto da ação direta. Quando alguém fala em nosso nome, mesmo dizendo o que pensamos hoje, continua falando em nosso lugar — e o que é decidido em nosso lugar pode, amanhã, contrariar exatamente o que desejamos.
Não queremos governo melhor. Queremos deixar de precisar de governante. Não queremos representante mais honesto. Queremos relação social em que nossa autonomia não dependa da honestidade de quem ocupa cadeira. Existe diferença brutal entre ser consultado e ter poder de decisão — e a democracia representativa nos ensina, todos os dias, a confundir as duas coisas.
A urna pergunta quem deve ocupar o poder. A autogestão pergunta por que alguém deveria possuí-lo. A eleição pede que escolhamos representante. A democracia direta exige que assumamos responsabilidade. A representação diz: confie em alguém. A anarquia responde: organize-se com os demais.
Essa é a ruptura. Não queremos ser representados na construção da própria liberdade — queremos construí-la. Nossa emancipação não será assinada por representante, concedida por partido, decretada por governo, nem entregue por vanguarda que promete desaparecer depois de tomar o poder. Será obra de quem a constrói.
Por isso: organizemos a comunidade, construamos a assembleia, criemos rede de apoio mútuo. Toda vez que disserem que precisamos de senhor para nos proteger, responderemos que sabemos cuidar uns dos outros. Toda vez que disserem que precisamos de representante para falar por nós, responderemos que sabemos falar por nós mesmos. Não queremos escolher nosso senhor. Queremos acabar com a necessidade de senhor.
A liberdade não terá intermediário. A revolução não terá dono novo.
Nenhum senhor. Nenhum governante. Nenhum salvador. Autogestão, solidariedade, liberdade — construídas por nossas próprias mãos, a partir de agora.
